segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

And the Oscar goes to... "Bohemian Rhapsody"

Nostálgico. Talvez esta seja a melhor definição para "Bohemian Rhapsody". Cheio de referências históricas - porém sem muita fidelidade à cronologia e detalhes dos fatos citados -, o longa é obrigatório para quem gosta de música, é fã do Queen ou, simplesmente, gosta de assistir filmes bem produzidos. O roteiro gira em torno do concerto de rock beneficente Live-Aid, realizado com o intuito de arrecadar fundos para "as pessoas famintas da Etiópia", como descreveram os organizadores do evento, ocorrido no dia 13 de julho de 1985, e traz grande parte da história do Queen, desde a formação da banda até o dia do show. Este evento foi considerado grandioso para a época, tendo reunido bandas como U2, Dire Straits, David Bowie, The Who, Elton John, Paul McCartney, Black Sabbath, Judas Priest, Santana, Madonna, The Cars, Eric Clapton, Phil Collins, Led Zeppelin, Duran Duran, Mick Jagger, Bob Dylan, dentre outros, em dois shows simultâneos: um no histórico estádio de Wembley, em Londres (onde o Queen se apresentou), e outro no estádio John F. Kennedy na Philadelfia, Estados Unidos, em mais de 16 horas de shows ininterruptas. Na época a Etiópia, país situado no leste africano, sofria com a fome em massa causado por conflitos internos e seca, matando 400 mil pessoas de forma direta em apenas três anos, o que incentivou a ideia de um concerto beneficente para angariar fundos para um ajuda humanitária.

E por que este evento é tão importante para o Queen a ponto de merecer ter tamanho destaque em um filme sobre a banda? Simples: os 24 minutos em que Freddie Mercury esteve no palco com a banda são considerados por muitos fãs e críticos como sendo a maior apresentação ao vivo de uma banda em todos os tempos. Exagero ou não, o show levou ao delírio os quase 80 mil presentes em Wembley e quase 2 bilhôes de pessoas que assistiram ao concerto no mundo todo pela televisão, segundo estimativas, em mais de 100 países. A arrecadação do evento também foi impressionante: até a apresentação do Queen, quase 7 horas após o início dos shows, girava em torno de 1,2 milhão de Libras. Após a apresentação da banda, e ao fim do evento, calcula-se que a arrecadação final ultrapassou 150 milhões de Libras (cerca de 187 milhões de dólares na época e 470 milhões de dólares nos dias atuais, considerando a inflação do período e a cotação atualizada). Realmente um feito grandioso.

Vale dizer que como referência biográfica o longa não é muito fiel aos fatos. Questões importantes como a época em que Freddie descobriu ter aids, brigas e separação da banda que nunca existiram ou até mesmo a forma em que ele conheceu os demais componentes ou seu futuro companheiro Jim Hutton, são contados no filme buscando dar contornos mais românticos do que ser fiel à história. Desta forma, a principal crítica ao filme é justamente quanto à falta de apego aos fatos históricos e não deve ser usado como referência principal para quem não conhece a banda e deseja ter mais informações à respeito do Queen. Muitos dos fãs mais próximos da banda "torceram o nariz" para o filme, ou ao menos não gostaram da forma como a história foi contada, pois uma particularidade do longa é praticamente unânime: a excepcional interpretação do ator Rami Malek como Freddie, digno de todos os prêmios recebidos até o momento, muito merecidos.

Nas premiações pré-Oscar, "Bohemian Rhapsody" venceu o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme em drama, mas ficando de fora do Critic´s Choice e sendo derrotado por "Green Book – O Guia" na premiação do Sindicato dos Produtores de Hollywood (considerado o maior termômetro para a principal categoria do Oscar), perdendo força na corrida. Já Rami Malek também venceu o Globo de Ouro como Melhor Ator em Drama, perdendo para o seu principal concorrente Cristian Bale (que sofreu uma completa transformação física em "Vice", interpretando o ex-vice presidente dos EUA Dick Cheney) no Critic's Choice e que também venceu o Globo de Ouro, porém no gênero de comédia ou musical. Quando tudo indicava que Bale ficaria em vantagem na disputa, Malek venceu o prêmio do Sindicato dos Atores de Hollywood (principal termômetro pré-Oscar nas categorias de atuação), voltando a figurar como favorito. Filme e ator chegam muito fortes ao Oscar, que também concorre nas categorias de Edição, Edição de Som e Mixagem de Som.

O longa é bem produzido e os atores são magistrais na interpretação dos componentes da banda. O ator Ben Hardy, que interpreta o baterista e multi instrumentista Roger Taylor, precisou aprender a tocar 11 músicas na bateria para filmar as cenas de apresentação; o ator Rami Malek repetiu as manias de Freddie, além de ter ficado muito parecido com o cantor; já o ator Gwilyn Lee impressiona pela aparência física com o guitarrista Brian May, além de também conseguir imitar as performances dele com louvor. A fotografia é um dos pontos fortes da trama, apesar de ter ficado de fora da categoria no Oscar: cópia quase idêntica do estádio de Wembley, com imagem envelhecida durante o filme e figurino de época, nos remetendo à imagens dos anos 80 de forma muito convincente. A Edição também foi muito bem feita, o que rendeu a primeira indicação ao Oscar para John Ottman ("X-Men 2", "X-Men: Apocalipse" e "Supermen - O Retorno"), que também trabalhou como compositor no filme.

Quanto às categorias de som, obviamente merece uma atenção especial: forte concorrente nas categorias de Edição de Som e Mixagem de Som, os diretores foram muito felizes da forma como o filme foi concebido. Nas apresentações da banda, o ator Rami Malek simplesmente fez uma "dublagem" do som original, o que deixa o filme, para quem assiste, muito real, mas sem superficialidade graças à exemplar interpretação do ator; já nas cenas em que precisava improvisar dando voz ao personagem (mas com afinação próxima à de Freddie), foi usada uma técnica de mixagem entre a voz do ator e de Mark Martel, famoso imitador do cantor que faz muito sucesso na internet. Não surpreenderá se vencer nestas categorias, apesar de não ser o grande favorito.

No Oscar 2019:

Grandes chances: Melhor Filme e Melhor Ator (Rami Malek);
Boas chances: Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som;
Outras categorias: Melhor Edição.

Daniel Mercer.

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