Mapa eleitoral das Eleições presidenciais dos EUA, contando apenas os
estados com vantagem de 5% para algum dos candidatos na média das últimas
pesquisas. É a fórmula mais utilizada pela imprensa norte americana.
Fonte: realclearpolitics.com
Na próxima terça-feira, dia
8 de Novembro, será decidida a eleição mais disputada em muitos anos nos
Estados Unidos. Desde a disputa entre George W. Bush x Al Gore, em 2000, que
não se chega às vésperas das eleições com tantos jornalistas e cientistas políticos
mudando de opinião a cada dia sobre quem deverá ser o novo presidente
americano. Neste post, irei me atentar especialmente aos números das últimas
semanas, sobre as reais chances de ambos e como o "azarão" Donald
Trump corre por fora para desbancar a, ainda, grande favorita Hillary Clinton, na última semana de campanha.
O mapa eleitoral atual.
Para começar, comentarei o
mapa que ilustra o início do post. Se trata do mapa atual da eleição,
levando-se em consideração uma margem de 5% de vantagem para um dos candidatos.
Num cenário em que "vermelho" indica os estados com vantagem para
Trump e "azul" os estados com vantagem para Hillary, com os tons de
ambas as cores indicando que a vantagem está entre 5 e 10% (mais claro); entre
10 e 20% (tom médio) e acima de 20% (mais escuro), mostrando quais estados
podem ou não mudar de cor nos próximos dias. A esta altura, os tons mais
escuros consistem em vantagens consolidadas e dificilmente mudarão de lado. Os
estados em "cinza" indicam os que não apresentam vantagem de 5% para
nenhum dos candidatos e que, obviamente, decidirão a eleição. Ao decorrer do
post publicarei e comentarei os mapas que não consideram a margem de 5% e que
mostram uma tendência de virada de Trump e um declínio considerável da candidata
democrata.

Mapa eleitoral de duas semanas atrás, quando a imprensa se dedicava mais
aos "escândalos sexuais" de Trump, do que às trapalhadas de Hillary
quando era Secretária de Estado. Alguns veículos já davam como vitória certa. Fonte: politico.com
Mapa eleitoral atual, depois dos debates e após o FBI reabrir as
investigações sobre os 33 mil e-mails deletados do servidor pessoal de Hillary
- que ela usava para não ser monitorada pelos órgãos oficiais. Fonte: realclearpolitics.com
Nos mapas acima podemos
verificar que existe uma tendência de rápida aproximação de Trump no colégio
eleitoral e um grande domínio nas regiões Sul, Centro e Meio-oeste, restando à
Hillary os estados mais populosos e ricos do Nordeste e da Costa Oeste.
"Estados-pêndulo"
(swing states).
Os
"estados-pêndulo" - estados que geralmente não possuem uma
tradição de voto em um dos dois partidos e que mudam de posição a cada eleição
- tendem a decidir sempre que a disputa se mostra apertada como a atual. Nesta
eleição, alguns serão mais decisivos que outros, seja devido a um número maior
de delegados no colégio eleitoral, seja por causa de uma guerra ponto a ponto,
com viradas sucessivas de um lado e de outro.
Abaixo os principais
estados deste grupo e como está a evolução dos candidatos nas pesquisas ao
longo da disputa (levando em consideração a média aritmética delas):
ESTADOS PÊNDULO
|
DELEG.
|
20/set
|
05/out
|
20/out
|
01/nov
|
HILLARY
|
TRUMP
|
HILLARY
|
TRUMP
|
HILLARY
|
TRUMP
|
HILLARY
|
TRUMP
|
FLÓRIDA
|
29
|
43,30%
|
43,30%
|
45,80%
|
43,00%
|
46,80%
|
43,00%
|
44,50%
|
45,50%
|
OHIO
|
18
|
40,40%
|
42,40%
|
41,30%
|
43,50%
|
44,00%
|
44,60%
|
44,30%
|
46,80%
|
GEÓRGIA
|
16
|
41,30%
|
45,00%
|
41,00%
|
45,80%
|
41,30%
|
46,30%
|
42,30%
|
48,00%
|
CAROL. DO NORTE
|
15
|
42,00%
|
42,00%
|
44,70%
|
42,30%
|
45,80%
|
43,30%
|
46,30%
|
47,00%
|
VIRGÍNIA
|
13
|
43,30%
|
39,00%
|
44,00%
|
37,00%
|
45,00%
|
36,30%
|
47,00%
|
42,30%
|
ARIZONA
|
11
|
40,40%
|
38,20%
|
39,00%
|
42,00%
|
41,80%
|
40,50%
|
43,30%
|
45,70%
|
COLORADO
|
9
|
40,00%
|
37,00%
|
42,20%
|
38,60%
|
44,50%
|
37,30%
|
43,70%
|
41,30%
|
Caso o candidato Donald
Trump dependesse apenas destes estados e continuasse a tendência de crescimento
nos próximos dias, poderíamos cravar: "Trump será o próximo presidente dos
Estados Unidos". Porém, a situação dele não é tão confortável quanto pode
parecer num primeiro momento. As viradas tem sido constantes e qualquer
novidade a favor de Hillary ou contra ele pode mudar tudo novamente. A máquina que ela possui nas mãos e o total apoio do partido, também poderão ser decisivos na reta final.
Como podemos observar nos
mapas e na tabela acima, os maiores "estados-pêndulo" estão com
ligeira vantagem para o candidato republicano. Hoje o mapa eleitoral mostra um
total de 273 x 265 para Hillary Clinton. Para que Trump vença, terá que manter
a dianteira em todos os estados que aparece com pequena vantagem: Flórida,
Ohio, Geórgia, Carolina do Norte e Arizona - nos três primeiros ele tem mantido
uma vantagem sólida, apesar de pequena, ao longo das últimas semanas; já na
Carolina do Norte e no Arizona, fundamentais para que tenha qualquer chance,
ele ultrapassou apenas ontem, numa vantagem que pode não se manter. Hillary
dominou ambos os estados durante toda a campanha, perdendo a liderança apenas
agora.
Porém, apenas estes estados
não seriam suficientes. Lembrando que são necessários 270 delegados para a
vitória, uma virada de última hora no Colorado - que tem diminuído a diferença
nos últimos dias -, será o ponto crucial para a vitória do republicano.
Imaginar que um estado pertencente à região das Montanhas Rochosas, com 5
milhões de habitantes e apenas 9 delegados no Colégio Eleitoral, decidirá a
eleição mais disputada dos últimos anos, regendo o futuro da nação mais
poderosa do mundo, parece loucura, mas é a mais pura realidade. Poderá sair daí
o grande vencedor.
Utah e o azarão Evan
McMullin.
Aqui se encontra mais uma
peça do imenso quebra-cabeça da Eleição americana de 2016, que confunde até o
mais experiente analista político. Utah é um estado ainda menor que o Colorado
(com menos de 3 milhões de habitantes), de maioria conservadora, composto por
70% de mórmons e tradicionalmente um estado republicano (possui o governador e
os dois senadores do partido, que também venceu todas as disputas presidenciais
desde 1952). Seria um estado facilmente vencido por Trump - que lidera as
pesquisas -, se não fosse por um detalhe: o mórmon Evan McMullin, que morou no
Brasil na década de 90, em algumas cidades do Rio Grande do Sul.
McMullin é um
auto-denominado conservador, ex-membro do Partido Republicano (saiu do partido
este ano apenas para disputar a eleição), que decidiu de forma independente
entrar na briga em Utah e em mais 10 estados. Não tem chances de vencer a
eleição majoritária, mas quer fazer história, sendo o primeiro candidato fora
dos dois principais partidos do país a vencer um estado desde a eleição de
1968. A surpresa é ainda maior quando se percebe que todos os candidatos
republicanos venceram no estado nos últimos 50 anos e, desde 2000, com um
percentual superior a 60%. Atualmente Trump lidera com 32%, contra 30% de
McMullin e 24% de Hillary, mas algumas pesquisas já colocam o mórmon à frente
do republicano.
E nesta disputa tão
apertada, pode acontecer algo bem inusitado, que ocorreu apenas duas vezes na
eleição americana (nos longínquos anos de 1800 e 1824): se um candidato
não conseguir os 270 votos necessários no Colégio Eleitoral, a eleição tem de
ser decidida pela Câmara dos Deputados entre os três primeiros colocados dentre
os delegados. Neste cenário entrariam o próprio McMullin, Trump e Hillary.
Nesta situação hipotética e bem pouco provável, Trump levaria vantagem, pois o
Partido Republicano tende a continuar com maioria na Câmara. E, a menos que
deputados republicanos votem no candidato independente de Utah ou na Hillary,
ele tenderia a vencer com certa folga. Mas não deixaria de ser inusitado.
E em que situação esta
"loucura" poderia acontecer? Se Trump mantiver a frente nos
"estados pêndulo" em que está liderando (Flórida, Ohio, Geórgia,
Carolina do Norte e Arizona), virar a eleição no Colorado, mas perder em Utah.
Desta forma, o republicano ficaria com 268 votos no Colégio Eleitoral, Hillary
ficaria com 264 e McMullin com os 6 votos de Utah. Será tão impossível quanto
parece? As circunstâncias atuais tendem a afirmar que não.
O caso dos e-mails de Hillary e a reabertura da investigação.
Voltando para o mundo real e
saindo do campo das hipóteses pouco prováveis, não poderia finalizar o texto
sem escrever um pouco sobre o assunto que tende a dominar o noticiário nesta
última semana de campanha: a reabertura da investigação sobre os 33 mil e-mails
deletados pelos advogados de Hillary e que ela mantinha em servidor pessoal no
porão de casa, quando era Secretária de Estado Americano.
Depois de ter arquivado o
caso em agosto, o FBI decidiu reabri-lo a apenas 10 dias da eleição. Muitos tem
alegado que se trata de um grande "complô" para prejudicar a
candidata, mas é evidente que as recentes informações do WikiLeaks, de que o
tal servidor pessoal foi hackeado pela Rússia e que e-mails confidenciais foram
vazados, contribuíram muito para que o FBI voltasse ao caso.
A despeito de teorias da
conspiração, particularmente eu tenho a opinião de que o caso até demorou a ser
debatido pela imprensa americana, que em sua maioria tem apreço pelo Partido
Democrata e criou total aversão ao candidato Trump. Seria muito ruim para a
eleição se os casos sexuais do magnata continuassem a ser mais importantes para
o eleitor americano e para o mundo, que as várias mentiras contadas pela
candidata democrata sobre um caso que é considerado o maior escândalo da
política americana desde o Watergate.
É evidente que este assunto
já deveria ter sido debatido há meses, inclusive já deveria ter sido elucidado
e vencido ou a favor de Hillary ou contra ela. Jogar a sujeira para
"debaixo do tapete" é que não parece nada democrático e deixa uma
grande suspeita se não era a candidata que estava sendo protegida durante todo
este tempo. Ruim para ela que o assunto voltou tão próximo da eleição, pois
terá que passar os próximos dias se defendendo, enquanto Trump terá tempo de
fazer campanha, buscando os votos necessários para vencer a eleição.
Façam suas apostas, pois eu
já fiz a minha: será a eleição mais imprevisível que já presenciei dentre as
eleições americanas. Meu palpite, hoje, é que a Hillary vença na soma dos
estados, se torne a nova presidente, mas perca no voto popular, tirando um pouco
o brilho da vitória.
Mas, é evidente, que amanhã
o palpite pode mudar. Quem vencerá?
Daniel Mercer. |
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