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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Resultados em Iowa - Partido Democrata.


No partido democrata a surpresa ficou por conta do caucus ter sido o mais apertado da história em Iowa. Fica o registro que o sistema de disputa do partido é extremamente confuso e complexo. Eles se utilizam de cálculos e fórmulas para chegarem a um resultado que até os principais jornais e redes de televisão tem dificuldade de apurar. Enquanto o vencedor do partido republicano Ted Cruz foi anunciado cerca de duas horas após o início do caucus, o partido democrata ainda tinha dificuldade em declarar o vencedor no dia seguinte. “Caos” foi a palavra utilizada pelo jornal britânico "The Guardian", com críticas bastante severas ao sistema de disputa e à apuração democrata. Já o principal jornal de Iowa, o “Des Moines Register”, passou dois dias publicando reportagens sobre sumiço de cédulas de votação em algumas assembleias, a disputa pela indicação de alguns delegados através de moedas no “cara ou coroa”, dentre outras inconsistências que foram deixando os números da disputa cada vez mais apertados com algumas correções nos dados oficiais. “Muitas contas têm surgido de contagens inconsistentes, voluntários sem formação, eleitores confusos, locais de votação apertados, falta de formulários de registro de eleitores e outros problemas”, foi o resumo da eleição feita pelo jornal em editorial na última Sexta-feira.

Os problemas na apuração democrata e a auditoria

Vários foram os problemas detectados no caucus democrata. Para começar, em algumas assembleias não se pode chegar a um vencedor, ou por não terem tido eleitores suficientes presentes ou por cédulas de votação terem sido rejeitadas na contagem eletrônica. Em outros casos, sumiram dezenas de cédulas, o que dificultou ainda mais a apuração.

No sistema democrata, as pessoas se reúnem nas assembleias e juntam-se em grupos de discussão para se formar maioria. Acontece que existe um mínimo de 15% para que o candidato seja considerado "viável", caso contrário seus votos não são considerados. Além disso, cada assembleia ou "precinct" tem um determinado número de delegados, que são escolhidos de acordo com a população de cada local. E através da votação de cada candidato é usada uma fórmula matemática para se chegar ao número de delegados que cada candidato tem direito. Isso tudo em cada uma das 1.783 assembleias. Como dito anteriormente, em alguns “precincts” foi necessário apelar para a moeda num “cara ou coroa”, também bastante criticado pela imprensa por não ter uma divulgação mais clara dos vencedores. O Des Moines Register chegou a divulgar que foram realizadas seis disputas de “cara ou coroa” com vitória de Hillary em todas. No Brasil, o G1 chegou a divulgar esta informação e ainda comentou uma publicação da BBC, em que um matemático ouvido afirma que a probabilidade de Hillary vencer as seis disputas de cara ou coroa era de 1,68%. Porém, no dia seguinte, o Partido Democrata corrigiu a informação, dizendo em nota que foram 13 assembleias a utilizarem a moeda, em que Hillary venceu seis e Sanders sete, um resultado com uma probabilidade bem maior.

Os resultados finais

Com isso, a diferença entre Hilary Clinton e Bernie Sanders foi modificada diversas vezes, até chegar ao resultado de 700,47 “delegados equivalentes” para Hillary, 696,92 para Sanders e 7,63 para O’Malley - divulgado no site oficial do Partido Democrata neste domingo, seis dias após a eleição e com um longo texto explicativo sobre os problemas ocorridos e da auditoria que foi realizada durante a semana pelo partido, com recontagem de votos em 14 assembleias. Ainda na noite do caucus, em discurso, Sanders afirmou que se sentia vitorioso por sair de Iowa com "delegados equivalentes" iguais aos de Hillary. De fato, o resultado pode sim ser considerado um "empate virtual", o que para ele foi uma grande vitória. Há alguns meses Hillary aparecia com 40% de intenção de voto à frente de Sanders no Estado e ter conseguido este resultado de quase empate foi uma grande vitória para o Senador.

Em resumo, a fórmula de disputa acontece da seguinte forma: dependendo da quantidade de delegados do partido para cada “precinct”, a quantidade de votos recebidos pelo candidato é multiplicado por um valor e dividido pelo número total de eleitores presentes. O resultado obtido da fórmula é arrendondado para o número inteiro mais próximo e representa uma fração de “delegados equivalentes”, que serão os delegados que cada candidato terá na convenção do condado. Com isso, o número real de delegados que cada um terá direito do estado na convenção de julho, só será definido em março, nas convenções dos Condados. Resumindo: o caucus extremamente complexo do último dia 1° só serviu para dividir os delegados que cada candidato terá direito na convenção do Condado. Os números de delegados nacionais divulgados pela imprensa são apenas projeções, que podem não se confirmar na convenção.

Abaixo, para ilustrar, um cédula de resumo democrata numa Assembléia no Condado de Story. Nesta Assembléia houveram 484 eleitores presentes, com 240 votos para Hillary, 179 para Sanders e 5 para O'Malley, sendo este considerado "inviável". Este foi justamente um dos "precincts" em que várias cédulas sumiram, gerando inconsistência no resultado. Na divisão dos delegados Hillary ficou com quatro e Sanders com três, sendo o oitavo delegado decidido no "cara ou coroa" e vencido por Hillary.

Fonte da imagem: Des Moines Register.



















Abaixo, o resultado geral projetado pela imprensa americana (utilizando os dados divulgados pelo Partido Democrata corrigidos no último domingo):

Votação por Condado
Clinton
Sanders

Votos das Assembleias e totalização
Delegados
Votos das Assembleias e total
Delegados
Votos das Assembleias e total
Delegados
Condado 1
38.788
8
19.029
4
19.596
4
Condado 2
37.176
8
17.635
4
19.328
4
Condado 3
35.362
7
18.829
4
16.296
3
Condado 4
28.654
6
14.240
3
14.232
3
PLEO
139.98
6
69.733
3
69.452
3
At-Large
139.98
9
69.733
5
69.452
4
Total de delegados

44

23

21
PLEO: Líderes do partido e oficiais eleitos comprometidos (pludged); At-Large: Delegados extras, 
de acordo com a votação do partido em outras eleições no Estado e levando em conta a diversidade 
do partido (mulheres e negros, em especial).

O candidato Martin O’Malley conquistou 752 votos nas Assembleias, obtendo uma quantidade de Delegados Equivalentes de 7,63, porém insuficientes para lhe assegurar , em projeção, algum delegado na Convenção Nacional, e desistiu da campanha; Sanders chegou a cogitar recontagem dos votos, mas aparentemente desistiu, após perceber que o resultado era praticamente de empate e em quase nada mudaria caso fizesse a recontagem; por fim, próprio Partido Democrata, em resposta às críticas da imprensa, decidiu fazer uma auditoria nas assembleias em que ocorreram os problemas, anunciando oficialmente o resultado que possibilitou a projeção acima.

Os "Superdelegados" e a grande vantagem de Hillary Clinton

Para finalizar, ainda existem os “superdelegados” - que ao contrário dos delegados que em março sairão das convenções dos condados “comprometidos” com os candidatos de acordo com a proporção dos votos recebidos -, não se comprometem com candidato algum e, teoricamente, só decidem em quem votar na Convenção Nacional. Porém, para aumentar a musculatura de seus candidatos, alguns já anunciam desde o início da campanha seu apoio. Em Iowa, por exemplo, Hillary já conta com seis dos oito Superdelegados do Estado, que são pessoas bastante influentes no partido: líderes, oficiais, Senadores, Representantes da Câmara, membros do comitê nacional, dentre outros. No Partido Republicano, para comparar, apenas três delegados representantes do partido não são compromissados em cada estado, porém em Iowa esses tipo de delegado não existiu. E nos estados em que existem os Superdelegados entre os republicanos, estes não costumam abrir seus votos antes da Convenção Nacional. Em outros casos, eles respeitam o resultado popular no Estado e votam no vencedor, o que não ocorre entre os democratas.

Abaixo eu coloco o número que cada candidato tem de Superdelegados até o momento, o que já dá uma boa vantagem à Hillary Clinton. Porém, estes Superdelegados podem mudar de posição a depender do rumo da campanha. Em 2008, contra Obama, por exemplo, Hillary começou com 100 Superdelegados de vantagem e terminou a campanha com apenas 10 de frente.

Candidato
Líderes Partidários Ilustres
Gov.²
Sen.³
Rep.4
Membros do Comitê Nacional (DNC)
Total
Hillary Clinton
8
13
39
157
139
356
Bernie Sanders
1
0
1
2
10
14
Martin O'Malley
0
0
0
1
1
2
Desc.¹
11
7
7
33
282
340
Total
20
20
47
193
432
712
1 Descompromissados; 2 Governadores; 3 Senadores; 4 Representantes da Câmara.

E o resultado em Iowa com os "Superdelegados" que já divulgaram apoio à Hillary incluídos (resultado projetado, já que a Convenção dos Condados só acontece em Março):

Candidato
Projeção dos Delegados
Superdelegados
Total
Hillary Clinton
23
6
29
Bernie Sanders
21
0
21
Descomprometidos
0
2
2
Fontes: thegreenpapers.com; politico.com e Partido Democrata.

Próxima disputa

Em New Hampshire, assunto do próximo post, a fórmula da disputa é mais simples por se tratar de uma "primária", ou seja, com votação simples de qualquer eleitor do Estado, filiado ou não. No Partido Republicano, os delegados compromissados, ou "pludged", são divididos proporcionalmente entre os candidatos de acordo com o resultado da votação no estado inteiro, e não de cada "precinct" ou condado, o que agiliza e facilita a apuração. No caso do Partido Democrata há uma divisão de alguns delegados de acordo com a votação geral nos dois Condados, enquanto outros delegados também são divididos de acordo com a votação geral do Estado, o que, em comparação com o complexo sistema do partido em Iowa, se torna bem mais simples.

No partido republicano, porém, vencer no estado será de fundamental importância em número de delegados. Diferentemente de Iowa, após a distribuição dos delegados pela % de cada candidato, os que sobram vão todos para o vencedor. Em Iowa os delegados restantes foram distribuídos um a um para os candidatos que tiveram uma fração mais próxima do número inteiro seguinte. Isso pode dar uma diferença de até cinco ou seis delegados entre o primeiro colocado e os demais. Além desse detalhe, existe uma exigência mínima de 10% dos votos para que os candidatos tenham direito na partilha dos delegados. Já no Partido Democrata o mínimo exigido é de 15%, porém todos os delegados são divididos proporcionalmente, devendo o número final ficar tão apertado quanto em Iowa.

No próximo post será detalhada a fórmula de disputa e as pesquisas em New Hampshire.

Daniel Mercer.


domingo, 7 de fevereiro de 2016

Resultados em Iowa - Partido Republicano


Numa semana repleta de acontecimentos, se iniciaram as prévias das eleições presidenciais americanas. Em Iowa foram muitas as surpresas, mas quem acompanha esta campanha há algum tempo, já esperava algumas reviravoltas, apesar de não tão drásticas. Como escrevi no último post, a disputa seria apertada e o resultado pouco decisivo, porém serviria de termômetro para as próximas prévias e deixaria claro quem continuaria forte na disputa e quem desistiria. Neste quesito em especial, anunciaram a desistência os candidatos republicanos Mark Huckabee, Rand Paul e Rick Santorum. Pelo lado democrata o candidato Martin O’Malley anunciou a desistência ainda durante a apuração na madrugada de terça-feira.

Partido Republicano

No partido republicano, o empresário e midiático Donald Trump não conseguiu confirmar a boa liderança nas pesquisas no estado que vinha tendo desde dezembro e acabou perdendo para Ted Cruz. Pesaram contra Trump dois fatores: seus simpatizantes são tradicionalmente pessoas que nunca votaram ou participaram de algum "caucus" anteriormente e, aparentemente, preferiram ficar em casa na fria noite de inverno da última segunda-feira. Outra questão que pesou foi identificada pela pesquisa da Emerson College realizada no dia do caucus: na semana anterior Trump não participou do último debate antes do início das prévias, realizada pela FoxNews. Ela é a maior emissora de notícias dos Estados Unidos desde que ultrapassou a CNN em 2002 e ele alegou uma suposta perseguição da mediadora em debate realizado no ano passado.

Em vez de participar do debate, em que foi duramente criticado por seus adversários, fez comício próximo ao local do debate e teve seu evento transmitido pela CNN e pela MSNBC, as duas outras grandes redes de notícias do país. Num primeiro momento muitos pensaram: "ah, mas ele ganhou a atenção sozinho de duas emissoras de TV, enquanto que todos os outros candidatos dividiram a atenção em uma única emissora". Acontece que, em primeiro lugar, a emissora do debate é a preferida dos republicanos por ser mais conservadora que as outras duas que são reconhecidamente mais "progressistas. Em segundo lugar, de acordo com a pesquisa da Emerson, mencionada anteriormente, 65% dos eleitores republicanos de Iowa assistiram ao debate, enquanto que apenas 35% tiveram conhecimento e sintonizaram a TV para verem o discurso de Trump. Ou seja, o que parecia uma boa estratégia se mostrou desastrada e com resultados ruins.

Outra questão que pode ter pesado, é o fato de que os moradores de Iowa são pessoas mais tradicionais e que preferem o contato direto do candidato ao invés de campanhas mais midiáticas. Ted Cruz e Marco Rubio se dedicaram bastante ao "corpo a corpo" com os eleitores nas últimas semanas, o que pode ter surtido efeito em favor deles.

Marco Rubio, inclusive, foi considerado por grande parte dos analistas e emissoras de TV dos Estados Unidos, a grande surpresa do caucus. O Senador do Texas era considerado carta fora do baralho, um candidato que teve seu momento de maior visibilidade entre maio e junho do ano passado, quando se manteve na liderança das pesquisas ao lado de Jeb Bush. Porém, quando Trump passou a monopolizar o discurso e os holofotes, ambos afundaram nas pesquisas e passaram a fazer figuração, apesar de Rubio sempre mostrar segurança e excelentes participações nos debates desde então. O resultado em Iowa o coloca dentre os três maiores nomes do Partido Republicano no momento e com bastante cobertura da mídia. O problema é que agora ele passa da condição de pedra para vidraça e o debate de sábado na rede ABC News já mostrou que não terá vida fácil. Rubio foi alvo de Ted Cruz, Jeb Bush, Trump e do Governador de Nova Jersey Cris Christie, que acusaram sua suposta inexperiência para ser Presidente da República. Pela primeira vez nos debates precisou ficar na defensiva e acusou o golpe, se mostrando bastante nervoso e com um discurso claramente decorado sobre o assunto. Pode ter freiado o seu crescimento dos últimos dias.

O resultado final

Abaixo o resultado final divulgado pelo Partido Republicano com a votação popular de cada candidato e a quantidade de delegados que conquistaram proporcionalmente para a Convenção Nacional em julho. Foram 186.932 eleitores em todo o estado de Iowa, recorde do partido:

1º Ted Cruz
6º Jeb Bush
Voto Popular
%
Delegados
Voto Popular
%
Delegados
51.666
27,63%
8
5.238
2,80%
1
2º Donald Trump
7º Carly Fiorina
Voto Popular
%
Delegados
Voto Popular
%
Delegados
45.429
24,30%
7
3.485
1,86%
1
3º Marco Rubio
8º John Kasich
Voto Popular
%
Delegados
Voto Popular
%
Delegados
43.228
23,12%
7
3.474
1,85%
1
4º Ben Carson
9º Mike Huckabee (desistiu)
Voto Popular
%
Delegados
Voto Popular
%
Delegados
17.394
9,30%
3
3.345
1,78%
1
5º Rand Paul (desistiu)
Voto Popular
%
Delegados
8.481
4,53%
1


Os candidatos Cris Christie com 3.284 votos (1,76%), Rick Santorum com 1.779 (0,95%) e Jim Gilmore com 12 votos (0,01%) não obtiveram votos suficientes para conquistar delegados para a convenção. Rand Paul, Mike Huckabee e Jim Gilmore abandonaram a campanha.

No próximo post será detalhado o resultado do Partido Democrata em Iowa e a expectativa para a próxima prévia terça-feira em New Hampshire.

Fontes: Site Oficial do Partido Republicano e thegreenpapers.com

Daniel Mercer.