terça-feira, 29 de março de 2016

A evolução do Impeachment


Nos últimos meses eu tenho focado politicamente nas prévias dos partidos republicano e democrata para as eleições gerais dos Estados Unidos. É uma forma de disputa centenária que me chama muito a atenção e me dá esperanças de que um dia nosso sistema eleitoral seja tão organizado e democrático como é o sistema americano.

Porém, fatores internos da política brasileira me fazem dar uma pausa nesta disputa e focar num tema importante e que pode fazer as próximas semanas serem bem interessantes e emocionantes em terras tupiniquins. E não é Copa do Mundo. É o Impeachment da presidente Dilma Rousseff, que está cada vez mais próximo. E quando digo “mais próximo” quero dizer que as chances são bem reais, para não dizer prováveis.

O desembarque do PMDB da base do governo na convenção do partido na véspera da maior manifestação política da história do Brasil - e confirmada hoje, quase que por unanimidade -, fez com que diversos outros deputados e senadores ligados ao governo desembarcassem da canoa já furada e afundando. As escutas telefônicas tornadas públicas pela justiça do país e que causou grande revolta na população pela forma chula e pouco republicana com que o ex-presidente Lula se dirigiu à justiça, a adversários políticos e até a membros do próprio partido, acirrou os ânimos no Congresso e fez com que o Vice-presidente Michel Temer já começasse a articular o seu próprio governo.

Mas como a intenção do blog não é repetir o que já se sabe através da grande imprensa, preferi trazer alguns dados estatísticos de como está a evolução do Impeachment no Congresso e na comissão especial que analisará e votará o relatório que vai a plenário em data ainda indefinida.

A comissão do Impeachment

Pela primeira vez desde que o PT subiu a rampa do Planalto, a oposição brasileira – agora bem menor que na época do Mensalão – está unida contra o governo. Foram muitos anos de conivência, em momentos que parecia até ter medo de ser oposição, que contribuíram para que o país chegasse à situação atual. A comissão especial do Impeachment foi criada no último dia 17 de Março, após idas e vindas, polêmica no Supremo Tribunal Federal, votação e anulação de chapa avulsa, dentre outras coisas. Mas... como votam os deputados da Comissão?

No dia que a comissão foi formada – 17 de Março –, o jornalista Fernando Rodrigues divulgou uma lista com a posição de cada deputado eleito para a comissão. Naquela ocasião 31 deputados apoiavam o Impeachment e 28 eram favoráveis ao governo. Havia algumas inconsistências na lista, como a suposta posição, contrária ao Impeachment, do presidente e do relator da comissão, os deputados Rogério Rosso (PSD/DF) e Jovair Arantes (PSD/GO), respectivamente. Os dois são aliados do Presidente da Câmara Eduardo Cunha e têm se declarado isentos até o momento, mas devem ser favoráveis ao Impeachment, inclusive tendo sido escolhidos pela oposição no dia anterior. O governo aceitou os dois unicamente para não sair derrotado da votação. Mas a pressão sobre os dois é grande, principalmente de eleitores de seus respectivos estados.

Após uma semana da escolha da comissão as coisas parecem ter piorado bastante para o governo. Alguns deputados que apareciam com tendência a votar a favor do governo e contra o impedimento, passaram a não responder mais sobre sua posição, se mostrando neutros ou independentes, e dizendo que irão “analisar o relatório e votar de acordo com suas convicções”. Isso demonstra uma clara mudança de posição para alguns.
Fonte: Estadão, Jornal Zero Hora e “Placar do Impeachment”.

















Entre os indefinidos estão, justamente, deputados da base aliada que analisam a posição de seus respectivos partidos, se continuam na base ou se colocam na condição de “partidos independentes”: PMDB, PP, PSD e PR. São deputados que, na minha opinião, tendem a abandonar o governo assim que o PMDB desembarcar da base e puxar o “blocão” da Câmara – também chamado de “centrão” por setores da imprensa e no Congresso – na qual lidera. Com isso, o relatório tende a ser aprovado com o dobro de votos dos deputados contrários. E mais uma etapa do Impeachment terá sido finalizada.

O plenário da Câmara















Como podemos perceber acima, não é nada fácil a vida do governo neste momento. Ainda sequer foi analisado o pedido de Impeachment por parte da comissão especial na Câmara; sequer foi feito um relatório; e já temos uma situação de completo abandono por parte da base aliada. Só sendo muito ingênuo para imaginar, na atual conjuntura, que ainda existam deputados ou senadores “indecisos”. Eles estão apenas esperando o melhor momento para declarem seu apoio ao Impeachment, pois os que estão com o governo já se declararam há muito tempo.

Abaixo um panorama de como estão as bancadas do PMDB, PP, PR e PSD, segundo reportagem de hoje do “Estadão”, levando em conta os depoimentos dos principais líderes destes partidos:

Fonte: "Placar do Impeachment"















É desta forma que o governo ainda acredita que pode escapar do Impeachment. Sinceramente, não dá mais. É questão de tempo, com data e hora marcada, para que a presidente Dilma Rousseff sofra o Impeachment.

Já li na Folha e no G1 que Eduardo Cunha pretende colocar a votação do plenário para um domingo. Seria algo histórico e, com certeza, viraria carnaval um Impeachment sendo transmitido ao vivo num domingo. Mas acredito que seja mais provocação que realidade. De qualquer forma existe uma grande probabilidade que seja aprovado e o governo já tem considerado a derrota como iminente. Dilma precisa de 172 deputados para se salvar e hoje conta com apenas 118.

Por sua vez, são necessários 342 deputados para aprovar o impedimento, em votação aberta, nominal, no plenário da Câmara, e existem 257 deputados que já se pronunciaram a favor. A questão é que os 138 “indefinidos” estão pendendo muito mais pelo impeachment, esperando apenas uma definição de seus respectivos partidos e da entrega dos cargos de confiança, coisa que o PMDB já está fazendo. E acho muito difícil que tantos deputados se arrisquem num "abraço de afogados" com um governo com mais de 80% de desaprovação. É ano de eleição e ninguém quer ser cúmplice de tentar salvar um governo zumbi. Quase todos vão pular fora.

Daniel Mercer.




sexta-feira, 25 de março de 2016

Momento de decisão no Partido Democrata


Enquanto no Partido Republicano a disputa só termina na Califórnia, no último dia das primárias em 07 de Junho, no Partido Democrata a briga termina no final de Abril, podendo ser no dia 19 em Nova York ou no dia 26 na Pensilvânia. Já há um clima de “já ganhou” na campanha da candidata Hillary Clinton desde a “Super Terça” do dia 1º de Março e, apesar do número de delegados “comprometidos” ganhos nas disputas estaduais estar mais apertada (1.228 x 934 para Hillary, segundo as contas do site “TheGreenPapers”), quando se somam os “Super Delegados” (líderes do partido com direito a voto) a vitória já está consolidada: 1.698 x 961, sendo necessários 2.383 delegados para a confirmação da vitória. A diferença é grande e as projeções dos próximos estados não deixa margem para uma improvável virada. Hillary já venceu. Precisa apenas somar delegados em Abril para que Sanders desista oficialmente da campanha.

A “Super Terça” e a consolidação da vitória

Foi na “Super Terça” de 1º de Março que Hillary pode respirar aliviada e comemorar a vitória. Até então eram os Super Delegados que lhe davam vantagem: Sanders havia vencido em New Hampshire e conseguido um “empate proporcional” em Iowa e Nevada, perdendo apenas na Carolina do Sul. Mas no dia 1º de Março Hillary venceu em oito dos doze estados em disputa, incluindo vitórias maiúsculas nos dois principais estados do dia: Texas (65,2%) e Geórgia (71,3%). Mesmo nos maiores estados que venceu (Minesota, Colorado e Oklahoma), Sanders não obteve grande vantagem na soma dos delegados comprometidos e dos super delegados. Apenas em seu estado natal Vermont, ele obteve boa vantagem, mas insignificante para o placar geral, pois se trata de um dos menores estados dos Estados Unidos.

A grande vantagem de Hillary se consolidou na “Super Terça II” do dia 15 de Março, com vitórias em todos os estados em disputa, alguns com grande margem de diferença: Flórida (65,9%), Illinois (50,5%), Ohio (56,5%), Carolina do Norte (54,6%) e Missouri (49,6%). Já venceu a disputa dentro do Partido Democrata e começa a se preparar para a eleição geral do dia 8 de Novembro. Espera de camarote seu adversário – Donald Trump ou Ted Cruz – numa eleição que promete ser a mais acirrada desde 2000, independente do candidato republicano.

Candidato
Projeção dos delegados¹
Superdelegados²
Total
Hillary Clinton
1.228
470
1.698
Bernie Sanders
934
27
961
¹ Delegados vencidos nas prévias dos estados. ² Delegados líderes do partido com 
direito a voto que escolhem seus candidatos independente do resultado das prévias.

Projeções para as próximas prévias e o descaso da mídia

Amanhã teremos disputa apenas no Partido Democrata, com prévias nos estados do Alaska e Washington, além do Havaí. São locais que tendem a dar vitória para Hillary, mesmo que por margem pequena. Curiosamente não há pesquisas eleitorais para o estado de Washington, um dos maiores do país; e no que há pesquisa, Alaska, foi feita apenas uma em janeiro. Ou seja, chegaremos na disputa amanhã sem a menor noção de quem está em vantagem entre os eleitores. Este descaso dos institutos de pesquisa e da grande mídia americana reflete o clima de disputa finalizada: enquanto estouram pesquisas nas prévias do Partido Republicano, em que ainda há uma grande disputa, no Partido Democrata a grande vantagem de Hillary não deixa margens para dúvida: ela já venceu a indicação do partido, só faltando a confirmação. E a grande mídia americana centra sua atenção para o clima de guerra que envolve a disputa republicana. Isso acaba sendo uma desvantagem para Hillary que, apesar de já poder se organizar com antecedência para a disputa nacional, perde espaço na atenção do eleitorado que está focando na disputa Trump x Cruz.

Daniel Mercer.