No partido democrata as
primárias de New Hampshire foram tranquilas e não se repetiram os problemas que ocorreram em Iowa. Como as pesquisas já indicavam, o socialista Bernie Sanders venceu com
tranquilidade, com um resultado a meu ver humilhante para a ex-secretária de
Estado Hillary Clinton. Além de todo o staff do partido, Hillary tinha o apoio
da Governadora de New Hampshire e, ainda assim, sofreu uma derrota superior a
20%. Tudo bem que a Governadora não tem tido grande popularidade, mas não deixa
de ser uma dupla derrota, dela e de Hillary. O Partido Republicano tem
inclusive usado o resultado como arma de campanha para a campanha de governador em seu site
oficial.
Hillary tem se mostrado
bastante preocupada com o avanço de Sanders. No último debate entre os dois ela partiu para o ataque e começou a colocar em dúvida propostas populistas do
Senador de Vermont, o acusando de prometer coisas impossíveis de se realizar. Se,
por um lado, Hillary assume uma postura mais conservadora e menos populista na
economia, tenta se aproximar dos negros e latinos, principalmente do sul do
país.
Promessas de regularização
dos imigrantes ilegais também são bandeiras de Sanders, então não acredito que
esta postura camaleão da Hillary dê bons resultados. Quem é de esquerda sempre
quer mais populismo, mais Estado, mais intervenção. E ela não se coloca como a
candidata que dará tudo que os esquerdistas querem. Porém, também não é uma candidata genuinamente
conservadora, muito pelo contrário, então não tem a menor chance de obter votos
de eleitores conservadores independentes, que tem vários candidatos republicanos
para escolher.
Na minha opinião, Sanders já
começa a ter chances reais de vitória, como já escrevi anteriormente, mas ela
se torna mais clara a cada prévia. Na próxima, o caucus de Nevada, ele já tirou
uma diferença de mais de 20 pontos percentuais e já aparece tecnicamente
empatado com Hillary. Nas pesquisas nacionais, no entanto, ela ainda continua
na frente, inclusive com grande vantagem em alguns Estados considerados
fundamentais na Super Terça do dia 1º de março, mas a diferença vem caindo
diariamente de forma sistemática. A vantagem, que era superior a 25 pontos a
menos de dois meses, hoje não passa dos cinco pontos. E repito mais uma vez: a
militância jovem democrata está em massa apoiando Sanders, o que pode fazer a
diferença ao final da disputa. Hoje eu já arriscaria uma vitória do socialista
na maior parte dos estados pelo Partido Democrata. O único entrave de sua
indicação é o peso que tem os superdelegados democratas, em que a maioria dos
grandes nomes já anunciou apoio à ex-secretária de Estado.
Não fossem estes
superdelegados, que na atual eleição estão se portando como antidemocráticos,
eu já arriscaria uma vitória do Sanders. Como aposta, disputaria a eleição
presidencial contra quem sobrar da briga entre Rubio x Cruz, desde que um apoie
o outro contra Donald Trump. É uma aposta arriscada devido às circunstâncias
atuais, em que Hillary e Trump ainda se mostram à frente nas intenções de voto e são favoritos. Mas suas respectivas campanhas dão sinais de esgotamento, enquanto
as demais parecem renovadas. E o atual momento é crucial para qualquer
candidatura.
O
resultado final
A apuração do Partido
Democrata e a divisão dos delegados em New Hampshire foi bastante tranquilo. Não
houve controvérsia entre os meios de comunicação, que desde cedo já cravavam
ampla vitória de Bernie Sanders nos dois distritos do estado e também na
votação geral. Pelas regras do partido para a primária, em cada um dos dois
distritos haveria divisão proporcional de oito delegados em cada e na votação
geral ocorreria a divisão de mais oito delegados, também proporcionalmente. Estes 24
delegados somam-se aos oito superdelegados que não tem a obrigação de votar de
acordo com o resultado da eleição na convenção nacional – são os delegados “não
comprometidos”. Seis destes superdelegados já anunciaram apoio à
Hillary, dentre eles a governadora do Estado e algumas outras autoridades. Este
apoio deixou a divisão dos delegados empatada em New Hampshire, o que dá uma
sensação de grande injustiça e de falta de respeito à decisão dos eleitores. Como
pode um candidato vencer por mais de 20% de diferença nos votos populares, mas terminar
com uma divisão igualitária dos delegados?
Sobre os superdelegados eu
escrevo mais abaixo, agora vamos ao resultado final em New Hampshire,
levando-se em consideração apenas os delegados comprometidos em disputa:
Votação Final e por Distrito
|
Bernie Sanders
|
Hillary Clinton
|
|||||||
Votos Válidos
|
Delegados em disputa
|
Votos
|
Divisão
|
Delegados ganhos
|
Votos
|
Divisão
|
Delegados ganhos
|
||
Distrito 1
|
114.116
|
8
|
68.200
|
4,78
|
5
|
45.916
|
3,22
|
3
|
|
Distrito 2
|
117.967
|
8
|
73.561
|
4,99
|
5
|
44.406
|
3,01
|
3
|
|
PLEO
|
232.083
|
3
|
141.761
|
1,83
|
2
|
90.322
|
1,17
|
1
|
|
At-Large
|
232.083
|
5
|
141.761
|
3,05
|
3
|
90.322
|
1,95
|
2
|
|
Delegados Totais
|
24
|
15
|
9
|
||||||
PLEO: Líderes do partido e
oficiais eleitos comprometidos (pludged); At-Large: Delegados extras, de acordo
com a votação do partido em outras eleições no Estado e levando-se em conta a
diversidade e as cotas no partido. Fonte: thegreenpapers.com
Como pode-se verificar na
tabela acima, cada distrito tem oito delegados em disputa, além de três líderes
comprometidos e mais cinco delegados extras que são eleitos para, teoricamente,
suprir diferenças raciais e de sexo dentro do partido. A divisão é feita pela
fórmula: total de delegados x número de votos do candidato ÷ pelo total de
votos (neste caso ou do distrito ou do geral). Após a divisão, arredonda-se
para o número inteiro mais próximo. Desta forma, Sanders terminou com 15
delegados comprometidos e Clinton com 9 delegados comprometidos para a
Convenção Nacional de julho.
Porém, este não pode ser considerado
o resultado final do Partido Democrata em New Hampshire. Esta é apenas a
divisão dos chamados “delegados comprometidos”, que leva em consideração a
proporcionalidade da votação de cada candidato. Como, dos oito “delegados não
comprometidos” ou superdelegados, seis já abriram seus votos e apoiaram a
candidata Hillary Clinton, os dois saem da primária empatados, restando apenas
outros dois superdelegados que não abriram seus votos até o momento.
Candidato
|
Delegados ganhos
|
Superdelegados
|
Total
|
Bernie Sanders
|
15
|
0
|
15
|
Hillary Clinton
|
9
|
6
|
15
|
Não Comprometidos
|
0
|
2
|
2
|
O
peso dos superdelegados
E esta aparente falta de
democracia do Partido Democrata contrasta completamente com as regras do
Partido Republicano: apesar de alguns pequenos problemas quanto à divisão de um
ou outro delegado, os superdelegados republicanos – ou líderes do partido –
estão todos no bolo para a divisão proporcional. Até o momento não há nenhum
tipo favorecimento a nenhum dos candidatos e os apoios de governadores e
senadores a qualquer um não dá a ele nenhum tipo de vantagem a mais na disputa,
apenas o peso do próprio apoio, o que já é muito. São regras que respeitam a
escolha do eleitor e paracem serem bem menos coronelistas. A Hillary iniciar a
campanha com mais de 300 superdelegados de vantagem passa uma impressão muito ruim
a quem presencia o dia a dia da disputa. Inclusive há um abaixo assinado
circulando na internet, convocando a população a se manifestar contra este
resultado. O documento cita nominalmente todas as autoridades do estado que
votam como superdelegados não comprometidos e os acusa de não respeitar a
decisão soberana do eleitorado, afirmando que esse não pode ser considerado um
resultado democrático.
![]() |
| Ilustração produzida pelo Partido Republicano demonstrando a incongruência da divisão dos delegados do Partido Democrata, em especial quanto aos Superdelegados. |
Abaixo o total de delegados distribuídos em Iowa e New Hampshire e os superdelegados que já abriram seus votos até o momento em todo o país. É bem claro um favorecimento
injusto, pois até o momento quem teve mais votos populares, aparece atrás no
resultado geral.
Candidato
|
Projeção dos delegados
|
Superdelegados
|
Total
|
Hillary Clinton
|
32
|
431
|
463
|
Bernie Sanders
|
36
|
15
|
51
|
O que realmente impressiona
é que nas últimas duas semanas, enquanto Sanders teve mais votos populares e,
consequentemente, mais delegados proporcionais, Hillary ganhou a adesão de mais
de 80 superdelegados, contra apenas um de Sanders. O que está ficando cada vez
mais evidente é que o Senador socialista não tem a simpatia da cúpula do
partido, até pelo fato de ter se filiado apenas no ano passado para concorrer
às eleições. Mas aí fica a dúvida: se a cúpula não confia nele e não o quer
como o candidato do partido, por que permitiu que ele se filiasse? Apenas para
fazer número e dar a impressão de uma disputa com vitória esmagadora de
Hillary? Se foi esta a intenção, não está dando muito certo, pois Sanders tem
crescido em todos os estados e como são necessários 2.382 delegados na
convenção, ele ainda pode ultrapassá-la nas primárias. É bem viável, apesar de
ainda difícil. Há quem torça por isso, o que não é, evidentemente, o meu caso. Acho o Sanders um candidato carismático, mas com ideias anticapitalistas e antiliberalismo econômico, algumas chegando a soarem antidemocráticas.
Daniel Mercer.


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