terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Eleições primárias em New Hampshire


Após uma semana tumultuada e de muitas reviravoltas, chegamos ao dia da segunda prévia da eleição presidencial dos Estados Unidos, em New Hampshire. Devido a um sistema de disputa mais simples, não devemos presenciar os problemas que ocorreram durante toda a última semana, em especial no Partido Democrata.

New Hampshire é um estado do nordeste dos Estados Unidos, que faz fronteira com Massachusets ao sul, Vermont ao oeste, Maine e o Oceano Atlântico ao leste e com a província de Quebec no Canadá ao norte. O Estado tem dado sucessivas vitórias aos candidatos democratas desde 2004, tendo George W. Bush, em 2000, como o único republicano vencedor nas eleições gerais no período de 1988 à 2012. Curiosamente seu pai, George H. W. Bush, havia sido o último republicano vencedor no Estado e seu irmão, Jeb Bush, que tem o apoio do Presidente do Senado Chuck Morsee, e tem subido nas pesquisas para as prévias na última semana, pode ter um bom resultado. A Governadora Maggie Hassan é do Partido Democrata e anunciou apoio à Hillary Clinton, apesar do Estado ser vizinho à Vermont, terra natal do Senador Sanders, e não tem ajudado muito sua candidata.

Como curiosidade, New Hampshire tem tido, nos últimos anos, movimentos separatistas e libertários de independência do país, visando um menor controle federal no Estado. Tem histórico de lutas por independência e foi uma das 13 colônias a se voltarem contra a Inglaterra no século XVIII, sendo a primeira a conquistar a independência. No último dia 3 de fevereiro, a causa libertária conseguiu mais de 20 mil assinaturas em favor da separação.

New Hampshire tem um milhão e trezentos mil habitantes, de maioria branca não latina, uma das menores populações do país (41º lugar). A economia é fortemente diversificada e inclui desde desde a produção têxtil, indústria de borracha e maquinário, até uma forte produção agrícola e turismo. Isso fez com que o pequeno estado conseguisse um salto na renda familiar no último século, figurando hoje na sétima posição do país com uma média de U$ 49 mil. O Estado possui 10 Condados, onze regiões metropolitanas; sua capital é Concord e a maior cidade é Manchester, ambas na região sul. New Hamphire possui apenas 4 votos no Colégio Eleitoral, mas tem uma importância simbólica na disputa: desde 1952 treze daqueles que se tornariam presidentes do país venceram as primárias por um dos dois maiores partidos. Em outras três vezes aquele que se tornaria presidente ficou em segundo lugar no estado. Nunca um terceiro colocado nas prévias de New Hampshire conseguiu se tornar Presidente dos Estados Unidos. Um desafio grande para os candidatos, principalmente entre os republicanos.

Partido Republicano

No partido Republicano a fórmula é simples: votação aberta durante todo o dia desta terça-feira, finalizando às 19h locais em quase todo o estado; pega-se o resultado de cada candidato e aplica-se a seguinte fórmula: 20 (número de delegados compromissados do Estado) x total de votos do candidato ÷ pelo número de votos contabilizados em todo o Estado. Porém existe uma restrição: os candidatos precisam ter pelo menos 10% dos votos (exigência mínima) para que possam fazer parte do rateio dos delegados. Isso fará toda a diferença, pois provavelmente apenas quatro ou cinco candidatos conseguirão ultrapassar esta margem, deixando os demais sem delegados para a Convenção de julho.

Feitos os cálculos, se aproxima o resultado do candidato ao número inteiro mais próximo e tem-se o número de delegados de cada candidato. Aí tem mais um detalhe muito importante: sempre sobram delegados na divisão e em New Hampshire existe uma regra diferente de Iowa. Enquanto que nas prévias da semana passada os delegados restantes eram distribuídos um a um entre os candidatos com a fração percentual mais próxima do número inteiro seguinte, na primária de hoje TODOS os delegados restantes vão para o candidato vencedor. Isso dará uma diferença de cinco a seis delegados para quem vencer. Sendo o vencedor um dos três primeiros colocados em Iowa – Ted Cruz, Donald Trump ou Marco Rúbio –, este já abrirá uma distância considerável em início de campanha e se fortalecerá ainda mais para as próximas prévias, em especial para a "Super Terça" de 1° de Março, o dia D para grande parte das candidaturas.

Os favoritos

Após o surpreendente terceiro lugar em Iowa, Marco Rúbio começou a subir bastante nas pesquisas, ultrapassando Ted Cruz que figurava em segundo a vários meses no Estado e chegou a incomodar Trump. Porém, após o debate de sábado na ABC News, em que foi fortemente atacado por quase todos os candidatos, principalmente sobre uma suposta inexperiência para o cargo de Presidente da República, ele passou a patinar nas pesquisas, perdendo muitos potenciais eleitores que havia ganhado desde Iowa, porém ainda aparece em segundo lugar e é um dos favoritos nas prévias de hoje. Trump continua com seus números, sem ganhar nem perder votos, por enquanto, numa folgada liderança; Ted Cruz caiu bastante desde as pesquisas anteriores às prévias de Iowa, demonstrando que os eleitores mais adeptos ao esquerdismo em New Hampshire não vão lhe dar a vitória que os mais conservadores de Iowa proporcionaram. Será uma grande surpresa se terminar numa posição acima do quarto lugar.

Quanto aos demais candidatos, chama a atenção a ascensão de John Kasich nas últimas pesquisas de New Hampshire, que aparece em algumas pesquisas na segunda colocação, à frente de Rúbio e Cruz. Outro personagem que estava bem apagado nos últimos meses e mostra uma pequena recuperação é o ex-governador do Texas Jeb Bush, que chega à New Hampshire como azarão, depois de praticamente se colocar fora da disputa, mas tendo dobrado suas intenções de voto depois do debate de Sábado. Estes devem ser os candidatos que receberão delegados nas prévias de hoje, restando saber quem vencerá, a posição de cada um e a % para divisão dos delegados. A minha aposta é que desta vez Donald Trump consiga confirmar sua vitória, já que não fez nenhuma besteira estratégica na última semana e baixou um pouco o tom das propostas mais radicais da sua campanha. Kasich pode surpreender e conseguir uma excelente votação no estado. Cruz e Bush devem brigar pelo quarto lugar, mas conquistarão delegados com facilidade, enquanto Rúbio disputará com Kasich o segundo lugar.

Veremos mais tarde o que os eleitores decidirão e quais dentre os demais candidatos sairão da disputa. Minha aposta é que Jin Gilmore e Carly Fiorina, que ficaram de fora do último debate e não tem mais visibilidade alguma na imprensa, saiam da disputa junto com Ben Carson, que caiu para as últimas posições nas pesquisas e não tem atrativos que possam lhe render um crescimento nas próximas prévias. Alguns ainda postergarão a decisão de sair da campanha até a Super Terça, mas para muitos isso significará gastos de financeiros e de tempo desnecessários na guerra contra o verdadeiro adversário, que são os candidatos. A pressão no próprio partido se tornará insustentável para todos os que não conquistarem delegados hoje.

Média das Pesquisas Eleitorais para Iowa (entre 02 e 08 de fevereiro):
  • Donald Trump – 30,7%;
  • Marco Rubio – 14,4%;
  • John Kasich – 13%;
  • Ted Cruz – 12,4%;
  • Jeb Bush – 11,3%;
  • Cris Christie – 3,2%;
  • Carly Fiorina – 2,6%;
  • Ben Carson – 2,6%;

Só como curiosidade, na véspera do caucus de Iowa as pesquisas indicavam números bem parecidos a estes, em especial quanto à diferença de Trump para os demais, apenas com inversão de posições dentre os candidatos seguintes, porém o resultado foi bem ruim para Trump e muito bom para Rubio e Cruz. Também nas pesquisas dos dias anteriores à prévia da semana passada, existia uma movimentação dos candidatos abaixo de Trump no sentido de se aproximar dele. Naquela feita, com crescimento súbito e rápido de Ted Cruz e Marco Rubio; desta vez os candidatos com crescimento considerável são Jonh Kasich e Jeb Bush.

Como uma segunda observação quanto às pesquisas, as últimas não constam o nome do ex-governador da Virgínia Jim Gilmore, que oficialmente ainda continua na disputa, porém sem qualquer chance. Também teve resultado insignificante em Iowa e parece continuar em campanha apenas para se tornar mais conhecido nacionalmente, mas sem qualquer cobertura da imprensa e dos institutos de pesquisa.

Partido Democrata

No partido democrata a disputa também é mais simples em comparação à Iowa e não deve render maiores discussões a respeito do resultado. O'Malley saiu da campanha, deixando aos dois únicos candidatos restantes, Hillary Clinton e Bernie Sanders, uma sensação de final, apesar de estar ainda no começo das prévias.

Os 24 delegados em disputa hoje pelos candidatos no Estado serão divididos da seguinte forma: distribuição proporcional de oito delegados em cada um dos dois Condados, levando-se em conta a % dos votos em cada um deles; distribuição proporcional dos oito delegados restantes – líderes do partido, oficiais e suprapartidários compromissados – de acordo com a votação em toda New Hampshire. Em relação aos líderes e oficiais descompromissados, aqueles que não precisam levar em consideração o resultado do Estado e votam no candidato que preferirem, seis já se decidiram por Hillary, assim como em Iowa, que já inicia a disputa no Estado com uma pequena vantagem. A exigência mínima de 15% dos votos para que o candidato seja considerado viável e tenha direito à divisão dos delegados não será problema para os dois candidatos em disputa, que deverão travar outra grande batalha por cada delegado.

Com relação ao favoritismo, parece que este é um dos Estados americanos que abraçaram Sanders. 75% da militância jovem democrata está trabalhando duro em sua campanha, o que começa a preocupar a equipe de Hillary, que passou a se portar mais como “progressista” nos últimos dias, concordando com diversas ideias de Sanders. Porém, ele se mostra mais enérgico no modo de falar, e tem cativado bastante os jovens da esquerda norte americana. Já escrevi a minha opinião sobre este fenômeno em outro post, mas repito: é extremamente preocupante a quantidade de jovens entre 17 e 24 anos nos Estados Unidos que abraçaram as ideias socialistas de Sanders, em especial ao aumento nos impostos, agigantamento do Estado, universalização do Obamacare e universidades federais gratuitas. Ideias que aproximam a nação mais rica e próspera do mundo aos governos mais atrasados e comunistas do continente. 

No Brasil, a esquerda inteira está em êxtase com a possibilidade dele vir a ser o presidente norte americano, pois sem sombra de dúvidas, enfraqueceria muito o poderio econômico dos Estados Unidos, um sonho antigo dos comunistas da América Latina. Muitos jornais tupiniquins não escondem a preferência editorial pelo socialista confesso e fazem artigos o colocando como o “grande nome da política americana da atualidade”. Também não escondem o repúdio à Trump e Cruz, do Partido Republicano, utilizando adjetivos como “ultra radicais”, “ultra conservadores” ou apenas de “extrema direita”, para descrevê-los quanto à suas ideias. Em nenhum momento os termos “ultra radical”, “comunista”, “socialista”, “ultra progressista”, ou simplesmente “extrema esquerda” são utilizados para descrever Sanders – que, sem dúvida, é muito mais radical nos ideais, no modo de falar e de se portar, que os adversários republicanos.

Média das Pesquisas Eleitorais para Iowa (entre 02 e 08/02):
  • Bernie Sanders – 54,5%;
  • Hillary Clinton – 41,2%;
Entre meados janeiro até o início da semana passada, Sanders cresceu bastante nas pesquisas em New Hampshire, chegando a figurar mais de 20 pontos à frente de Hillary logo após o resultado em Iowa. Porém, a diferença caiu bastante desde o último debate do dia 04/02 e vem oscilando entre 9 e 16%, sempre em favor de Sanders, que é Senador pelo estado vizinho de Vermont. Creio que devido ao trabalho da militância jovem do partido em favor do socialista, a vida de Hillary será bastante dificultada, não só em New Hampshire, mas em todos os estados menos conservadores ou de maioria partidariamente independente. A esperança dela no atual cenário é se apegar a eleitores que potencialmente votariam no Partido Republicano, mas que não se identificam com nenhum dos candidatos em disputa, uma situação, sem sombra de dúvidas, muito complicada para ela.

A força de Hillary, no momento, está no apoio de quase todas as autoridades e lideranças do partido, que não acreditam que Sanders, um candidato que até alguns meses atrás era um independente sem filiação partidária, possa levar adiante o legado dos democratas em caso de vitória nas eleições. Não fosse isso, a candidatura da Hillary já estaria desabando, o que, levando em consideração os números, está bem longe de acontecer, mas já não é tão improvável.

Daniel Mercer.


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