quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

And the Oscar goes to... "Moonlight: Sob a Luz do Luar".

“Moonlight: Sob a Luz do Luar” é uma junção de drama juvenil, mostrando desde o tráfico de drogas em comunidade pobre, com a mãe do protagonista dependente química, violência doméstica, bullying escolar quando ainda criança e romance gay adolescente. Tudo junto e misturado, mas na medida, com bom senso e sem exageros.

Chiron é uma criança pobre, que sofre bastante durante sua infância com a mãe Paula (Naomi Harris) usuária de drogas. Conhece o traficante Juan (Mahershala Ali) que o ajuda em alguns momentos de sua vida, principalmente quando não tinha onde passar a noite ou quando sua mãe o expulsava de casa. Juan e sua mulher Teresa (Janelle Monáe) tratam Chiron como sendo da família, se tornando sempre um porto seguro para o personagem principal em momentos de dificuldade. Mesmo depois da morte de Juan, que não é retratado no filme, apenas citado, Teresa continua recebendo Chiron em sua casa, tendo um quarto sempre à sua disposição. A história possui três fases distintas, em que Chiron é interpretado por atores diferentes: infância (Alex Hibbert), adolescência (Ashton Sanders) e fase adulta (Trevante Rhodes), este já como “Black”, conhecido e respeitado traficante local.

Particularmente, eu acho os filmes de Hollywood que tratam o tema da homossexualidade, no geral, bastante exagerados e caricatos. Um exemplo disso é o já clássico “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), que na época quis mais polemizar do que realmente mostrar as relações homoafetivas de forma real, já que apelou para cenas bastante fortes – e que só se vê em filmes pornôs, quando heterossexuais – numa época em que o tema ainda era pouco abordado. A proibição em diversos países árabes, do Caribe e em redes de cinema nos Estados Unidos ajudou na divulgação do filme e na estridência de ativistas, mas não muito em tentar diminuir o preconceito que ainda existe, mas que tem diminuído com o tempo. Já em “Clube de Compras Dallas” (2013), a homossexualidade é apenas mostrada de forma secundária, já que o foco principal é o combate à AIDS, devido aos primeiros grupos de risco da doença e de toda a discriminação sofrida pelos gays à época, e acabou tendo uma recepção crítica bem melhor. “Moonlight: Sob a Luz do Luar” está neste segundo grupo, não tendo o tema como central, sem a intenção de polemizar o assunto, mas o abordando de forma natural e singela, sem exageros ou caricaturas e mostrando as coisas como elas ocorrem na vida real.

O longa é baseado na obra do dramaturgo Tarell Alvin McCraney, “In Moonlight Black Boys Look Blue”, em projeto apresentado na instituição “Yale School of Drama”, ligada à Universidade Yale e que o próprio McCraney preside. Nasceu como uma peça teatral e foi adaptada para o cinema pelo diretor e roteirista Barry Jenkins, que concorre ao Oscar nas categorias Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Diretor, merecidamente. Por sua vez, acho bem exagerado o favoritismo de Mahershala Ali ao Oscar de melhor ator coadjuvante – venceu o Critics Choice e o prêmio do Sindicato dos Atores, mas não tem grandes concorrentes na categoria – talvez Dev Patel, por “Lion: Uma jornada para casa” ou Aaron Taylor Johnson, por "Animais noturnos", vencedor do Globo de Ouro. Não consegui identificar no filme uma atuação incontestável ou cenas que possam justificar tal favoritismo, a não ser, de fato, falta de concorrência.

Além das categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado, o longa concorre em quatro outras categorias: Melhor Atriz Coadjuvante (Naomi Harris), Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora. Tirando o favoritismo de Mahershala Ali e boas chances com o roteiro, não deve disputar com força nenhuma outra estatueta. Mas, por ter vencido o Globo de Ouro de Melhor Filme no gênero drama, e por ter grande apelo racial, o filme pode até surpreender na premiação. Como esquecer a campanha #OscarSoWhite do ano passado? A Academia este ano está com uma tendência a fazer um “mea culpa” e parece estar motivada a entrar no mundo do “politicamente correto”. Vamos esperar para ver o que acontece. Não é, nem de longe, o meu predileto. Mas não há dúvidas que tem suas qualidades e merece estar entre os indicados.

No Oscar 2017:

Grandes chances: Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali) e Melhor Roteiro Adaptado (Barry Jenkins);
Boas chances: Melhor Filme;
Outras categorias: Melhor Diretor (Barry Jenkins), Melhor Atriz Coadjuvante (Naomi Harris), Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora.

Daniel Mercer.

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