“Um
Limite entre Nós” (Fences, em inglês) é mais um daqueles filmes em que o título
em português foi modificado totalmente, sem explicação e sem fazer muito
sentido. É o tipo de situação que, num mundo globalizado, em que as pessoas
procuram cada vez mais informações em inglês, mesmo que fazendo uso de
tradutores online, só confunde e atrapalha quem procura dados sobre o filme.
Em se tratando de uma adaptação do teatro para o cinema a coisa piora, já que a
peça teatral só é conhecida como “Fences” e acaba não tendo ligação alguma com
o título em português. Quem será que faz este tipo de coisa e qual o ganho isso
tem para a divulgação do filme? “Fences” (cercas em inglês) é um título muito
mais apropriado, que nos leva a dois sentidos no desenrolar do enredo: a cerca
física, que é construída ao longo da trama pelo protagonista, e pela barreira
criada, esta invisível, entre ele e sua esposa, ocasionada pelas suas escolhas.
“Fences”
é uma peça teatral criada em 1983 pelo dramaturgo August Wilson para a
Broadway. Faz parte de uma série de peças teatrais – dez no total – que recebeu
o nome Pittsburg Cycle – Ciclo de Pittsburg –, já que nove dos dez ensaios se
passam na cidade homônima, segunda maior do estado da Pensilvânia e considerada
uma importante comunidade afrodescendente, com cerca de 26% da cidade formada
por afro-americanos. É a cidade onde nasceu Wilson, que também é o roteirista
da adaptação de “Fences” para o cinema, vencendo o importante prêmio Politzer em
1987.
“Um
Limite Entre Nós” tem como protagonista Troy (Denzel Washington), um personagem
extremamente mal humorado e irritadiço, frustrado por não ter conseguido fazer
carreira na liga de basebol para negros quando jovem – na época a Liga Nacional
de Basebol, Major League Baseball, ainda não permitia atletas negros inscritos.
Troy culpa o racismo pelo seu insucesso, já que acredita ser melhor, mesmo aos
53 anos, que a maioria dos atletas brancos da MLB, não tendo tido sucesso
apenas por causa da sua cor. A sua prisão, ainda enquanto jovem, devido a um
assassinato ocasionado num assalto, acabou jogando por terra qualquer chance de
sucesso na carreira esportiva.
Troy
é casado com Rose (Viola Davis), uma dona de casa dedicada aos cuidados do
marido e da criação do filho. Ambos moram com o filho Cory – que sonha ser
jogador de futebol, mas é constantemente boicotado pelo pai, que teme que seu
insucesso seja repetido por ele – e com o irmão mais novo Gabriel, um soldado
de guerra, que possui sequelas neurológicas visíveis.
O
roteiro é bom. Denzel, que já havia participado como ator da peça teatral entre
2010 e 2016 (juntamente com todo o elenco do filme), dá show de interpretação,
mas peca na direção, também feita por ele. De fato, poucos são os atores ou
diretores que conseguem fazer com maestria as duas coisas – e Denzel ainda é
coprodutor do filme. Denzel se mostra muito à vontade no papel, bastante
desenvolto e encarna o personagem com muita propriedade. Porém, os monólogos
apresentados por Troy são, muitas vezes, cansativos e enfadonhos. O filme é
pouco dinâmico e dá a impressão que estamos assistindo a uma peça teatral e não
a um filme. O roteiro, bem pouco modificado por Wilson, poderia ter sido melhor
adaptado para o cinema. A Direção de Arte do filme também é limitada, pois
devia ter explorado melhor o ambiente interno da casa, já que o foco acaba
sendo sempre o quintal, onde quase todas as cenas acontecem, em especial as
principais discussões – mais uma prova que a direção manteve os mesmos cenários
do teatro, com pouquíssimas modificações.
O
filme acaba sendo um show de interpretação de Denzel e Viola, que concorrem ao
Oscar nas categorias Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente.
Viola Davis tem se tornado a grande favorita na categoria, já tendo vencido o
“Critics Choice”, o Globo de Ouro, o SAG (prêmio do Sindicato dos Atores) e o
Bafta. Denzel corre por fora, tendo sido preterido em quase todas as
premiações, mas vencendo o SAG, que é o grande termômetro do Oscar, tendo
grande parte dos votantes membros da Academia. As outras categorias em que
concorre, Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, não têm grandes chances.
No
Oscar 2017:
Grandes
chances: Melhor Atriz (Viola Davis);
Boas
chances: Melhor Ator (Denzel Washington);
Outras categorias:
Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado (August Wilson).Daniel Mercer.

Nenhum comentário:
Postar um comentário