quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

And the Oscar goes to... "Um Limite Entre Nós".

“Um Limite entre Nós” (Fences, em inglês) é mais um daqueles filmes em que o título em português foi modificado totalmente, sem explicação e sem fazer muito sentido. É o tipo de situação que, num mundo globalizado, em que as pessoas procuram cada vez mais informações em inglês, mesmo que fazendo uso de tradutores online, só confunde e atrapalha quem procura dados sobre o filme. Em se tratando de uma adaptação do teatro para o cinema a coisa piora, já que a peça teatral só é conhecida como “Fences” e acaba não tendo ligação alguma com o título em português. Quem será que faz este tipo de coisa e qual o ganho isso tem para a divulgação do filme? “Fences” (cercas em inglês) é um título muito mais apropriado, que nos leva a dois sentidos no desenrolar do enredo: a cerca física, que é construída ao longo da trama pelo protagonista, e pela barreira criada, esta invisível, entre ele e sua esposa, ocasionada pelas suas escolhas.

“Fences” é uma peça teatral criada em 1983 pelo dramaturgo August Wilson para a Broadway. Faz parte de uma série de peças teatrais – dez no total – que recebeu o nome Pittsburg Cycle – Ciclo de Pittsburg –, já que nove dos dez ensaios se passam na cidade homônima, segunda maior do estado da Pensilvânia e considerada uma importante comunidade afrodescendente, com cerca de 26% da cidade formada por afro-americanos. É a cidade onde nasceu Wilson, que também é o roteirista da adaptação de “Fences” para o cinema, vencendo o importante prêmio Politzer em 1987.

“Um Limite Entre Nós” tem como protagonista Troy (Denzel Washington), um personagem extremamente mal humorado e irritadiço, frustrado por não ter conseguido fazer carreira na liga de basebol para negros quando jovem – na época a Liga Nacional de Basebol, Major League Baseball, ainda não permitia atletas negros inscritos. Troy culpa o racismo pelo seu insucesso, já que acredita ser melhor, mesmo aos 53 anos, que a maioria dos atletas brancos da MLB, não tendo tido sucesso apenas por causa da sua cor. A sua prisão, ainda enquanto jovem, devido a um assassinato ocasionado num assalto, acabou jogando por terra qualquer chance de sucesso na carreira esportiva.

Troy é casado com Rose (Viola Davis), uma dona de casa dedicada aos cuidados do marido e da criação do filho. Ambos moram com o filho Cory – que sonha ser jogador de futebol, mas é constantemente boicotado pelo pai, que teme que seu insucesso seja repetido por ele – e com o irmão mais novo Gabriel, um soldado de guerra, que possui sequelas neurológicas visíveis.

O roteiro é bom. Denzel, que já havia participado como ator da peça teatral entre 2010 e 2016 (juntamente com todo o elenco do filme), dá show de interpretação, mas peca na direção, também feita por ele. De fato, poucos são os atores ou diretores que conseguem fazer com maestria as duas coisas – e Denzel ainda é coprodutor do filme. Denzel se mostra muito à vontade no papel, bastante desenvolto e encarna o personagem com muita propriedade. Porém, os monólogos apresentados por Troy são, muitas vezes, cansativos e enfadonhos. O filme é pouco dinâmico e dá a impressão que estamos assistindo a uma peça teatral e não a um filme. O roteiro, bem pouco modificado por Wilson, poderia ter sido melhor adaptado para o cinema. A Direção de Arte do filme também é limitada, pois devia ter explorado melhor o ambiente interno da casa, já que o foco acaba sendo sempre o quintal, onde quase todas as cenas acontecem, em especial as principais discussões – mais uma prova que a direção manteve os mesmos cenários do teatro, com pouquíssimas modificações.

O filme acaba sendo um show de interpretação de Denzel e Viola, que concorrem ao Oscar nas categorias Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. Viola Davis tem se tornado a grande favorita na categoria, já tendo vencido o “Critics Choice”, o Globo de Ouro, o SAG (prêmio do Sindicato dos Atores) e o Bafta. Denzel corre por fora, tendo sido preterido em quase todas as premiações, mas vencendo o SAG, que é o grande termômetro do Oscar, tendo grande parte dos votantes membros da Academia. As outras categorias em que concorre, Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, não têm grandes chances.

No Oscar 2017:

Grandes chances: Melhor Atriz (Viola Davis);
Boas chances: Melhor Ator (Denzel Washington);
Outras categorias: Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado (August Wilson).

Daniel Mercer.

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