segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Resultados em Iowa - Partido Democrata.


No partido democrata a surpresa ficou por conta do caucus ter sido o mais apertado da história em Iowa. Fica o registro que o sistema de disputa do partido é extremamente confuso e complexo. Eles se utilizam de cálculos e fórmulas para chegarem a um resultado que até os principais jornais e redes de televisão tem dificuldade de apurar. Enquanto o vencedor do partido republicano Ted Cruz foi anunciado cerca de duas horas após o início do caucus, o partido democrata ainda tinha dificuldade em declarar o vencedor no dia seguinte. “Caos” foi a palavra utilizada pelo jornal britânico "The Guardian", com críticas bastante severas ao sistema de disputa e à apuração democrata. Já o principal jornal de Iowa, o “Des Moines Register”, passou dois dias publicando reportagens sobre sumiço de cédulas de votação em algumas assembleias, a disputa pela indicação de alguns delegados através de moedas no “cara ou coroa”, dentre outras inconsistências que foram deixando os números da disputa cada vez mais apertados com algumas correções nos dados oficiais. “Muitas contas têm surgido de contagens inconsistentes, voluntários sem formação, eleitores confusos, locais de votação apertados, falta de formulários de registro de eleitores e outros problemas”, foi o resumo da eleição feita pelo jornal em editorial na última Sexta-feira.

Os problemas na apuração democrata e a auditoria

Vários foram os problemas detectados no caucus democrata. Para começar, em algumas assembleias não se pode chegar a um vencedor, ou por não terem tido eleitores suficientes presentes ou por cédulas de votação terem sido rejeitadas na contagem eletrônica. Em outros casos, sumiram dezenas de cédulas, o que dificultou ainda mais a apuração.

No sistema democrata, as pessoas se reúnem nas assembleias e juntam-se em grupos de discussão para se formar maioria. Acontece que existe um mínimo de 15% para que o candidato seja considerado "viável", caso contrário seus votos não são considerados. Além disso, cada assembleia ou "precinct" tem um determinado número de delegados, que são escolhidos de acordo com a população de cada local. E através da votação de cada candidato é usada uma fórmula matemática para se chegar ao número de delegados que cada candidato tem direito. Isso tudo em cada uma das 1.783 assembleias. Como dito anteriormente, em alguns “precincts” foi necessário apelar para a moeda num “cara ou coroa”, também bastante criticado pela imprensa por não ter uma divulgação mais clara dos vencedores. O Des Moines Register chegou a divulgar que foram realizadas seis disputas de “cara ou coroa” com vitória de Hillary em todas. No Brasil, o G1 chegou a divulgar esta informação e ainda comentou uma publicação da BBC, em que um matemático ouvido afirma que a probabilidade de Hillary vencer as seis disputas de cara ou coroa era de 1,68%. Porém, no dia seguinte, o Partido Democrata corrigiu a informação, dizendo em nota que foram 13 assembleias a utilizarem a moeda, em que Hillary venceu seis e Sanders sete, um resultado com uma probabilidade bem maior.

Os resultados finais

Com isso, a diferença entre Hilary Clinton e Bernie Sanders foi modificada diversas vezes, até chegar ao resultado de 700,47 “delegados equivalentes” para Hillary, 696,92 para Sanders e 7,63 para O’Malley - divulgado no site oficial do Partido Democrata neste domingo, seis dias após a eleição e com um longo texto explicativo sobre os problemas ocorridos e da auditoria que foi realizada durante a semana pelo partido, com recontagem de votos em 14 assembleias. Ainda na noite do caucus, em discurso, Sanders afirmou que se sentia vitorioso por sair de Iowa com "delegados equivalentes" iguais aos de Hillary. De fato, o resultado pode sim ser considerado um "empate virtual", o que para ele foi uma grande vitória. Há alguns meses Hillary aparecia com 40% de intenção de voto à frente de Sanders no Estado e ter conseguido este resultado de quase empate foi uma grande vitória para o Senador.

Em resumo, a fórmula de disputa acontece da seguinte forma: dependendo da quantidade de delegados do partido para cada “precinct”, a quantidade de votos recebidos pelo candidato é multiplicado por um valor e dividido pelo número total de eleitores presentes. O resultado obtido da fórmula é arrendondado para o número inteiro mais próximo e representa uma fração de “delegados equivalentes”, que serão os delegados que cada candidato terá na convenção do condado. Com isso, o número real de delegados que cada um terá direito do estado na convenção de julho, só será definido em março, nas convenções dos Condados. Resumindo: o caucus extremamente complexo do último dia 1° só serviu para dividir os delegados que cada candidato terá direito na convenção do Condado. Os números de delegados nacionais divulgados pela imprensa são apenas projeções, que podem não se confirmar na convenção.

Abaixo, para ilustrar, um cédula de resumo democrata numa Assembléia no Condado de Story. Nesta Assembléia houveram 484 eleitores presentes, com 240 votos para Hillary, 179 para Sanders e 5 para O'Malley, sendo este considerado "inviável". Este foi justamente um dos "precincts" em que várias cédulas sumiram, gerando inconsistência no resultado. Na divisão dos delegados Hillary ficou com quatro e Sanders com três, sendo o oitavo delegado decidido no "cara ou coroa" e vencido por Hillary.

Fonte da imagem: Des Moines Register.



















Abaixo, o resultado geral projetado pela imprensa americana (utilizando os dados divulgados pelo Partido Democrata corrigidos no último domingo):

Votação por Condado
Clinton
Sanders

Votos das Assembleias e totalização
Delegados
Votos das Assembleias e total
Delegados
Votos das Assembleias e total
Delegados
Condado 1
38.788
8
19.029
4
19.596
4
Condado 2
37.176
8
17.635
4
19.328
4
Condado 3
35.362
7
18.829
4
16.296
3
Condado 4
28.654
6
14.240
3
14.232
3
PLEO
139.98
6
69.733
3
69.452
3
At-Large
139.98
9
69.733
5
69.452
4
Total de delegados

44

23

21
PLEO: Líderes do partido e oficiais eleitos comprometidos (pludged); At-Large: Delegados extras, 
de acordo com a votação do partido em outras eleições no Estado e levando em conta a diversidade 
do partido (mulheres e negros, em especial).

O candidato Martin O’Malley conquistou 752 votos nas Assembleias, obtendo uma quantidade de Delegados Equivalentes de 7,63, porém insuficientes para lhe assegurar , em projeção, algum delegado na Convenção Nacional, e desistiu da campanha; Sanders chegou a cogitar recontagem dos votos, mas aparentemente desistiu, após perceber que o resultado era praticamente de empate e em quase nada mudaria caso fizesse a recontagem; por fim, próprio Partido Democrata, em resposta às críticas da imprensa, decidiu fazer uma auditoria nas assembleias em que ocorreram os problemas, anunciando oficialmente o resultado que possibilitou a projeção acima.

Os "Superdelegados" e a grande vantagem de Hillary Clinton

Para finalizar, ainda existem os “superdelegados” - que ao contrário dos delegados que em março sairão das convenções dos condados “comprometidos” com os candidatos de acordo com a proporção dos votos recebidos -, não se comprometem com candidato algum e, teoricamente, só decidem em quem votar na Convenção Nacional. Porém, para aumentar a musculatura de seus candidatos, alguns já anunciam desde o início da campanha seu apoio. Em Iowa, por exemplo, Hillary já conta com seis dos oito Superdelegados do Estado, que são pessoas bastante influentes no partido: líderes, oficiais, Senadores, Representantes da Câmara, membros do comitê nacional, dentre outros. No Partido Republicano, para comparar, apenas três delegados representantes do partido não são compromissados em cada estado, porém em Iowa esses tipo de delegado não existiu. E nos estados em que existem os Superdelegados entre os republicanos, estes não costumam abrir seus votos antes da Convenção Nacional. Em outros casos, eles respeitam o resultado popular no Estado e votam no vencedor, o que não ocorre entre os democratas.

Abaixo eu coloco o número que cada candidato tem de Superdelegados até o momento, o que já dá uma boa vantagem à Hillary Clinton. Porém, estes Superdelegados podem mudar de posição a depender do rumo da campanha. Em 2008, contra Obama, por exemplo, Hillary começou com 100 Superdelegados de vantagem e terminou a campanha com apenas 10 de frente.

Candidato
Líderes Partidários Ilustres
Gov.²
Sen.³
Rep.4
Membros do Comitê Nacional (DNC)
Total
Hillary Clinton
8
13
39
157
139
356
Bernie Sanders
1
0
1
2
10
14
Martin O'Malley
0
0
0
1
1
2
Desc.¹
11
7
7
33
282
340
Total
20
20
47
193
432
712
1 Descompromissados; 2 Governadores; 3 Senadores; 4 Representantes da Câmara.

E o resultado em Iowa com os "Superdelegados" que já divulgaram apoio à Hillary incluídos (resultado projetado, já que a Convenção dos Condados só acontece em Março):

Candidato
Projeção dos Delegados
Superdelegados
Total
Hillary Clinton
23
6
29
Bernie Sanders
21
0
21
Descomprometidos
0
2
2
Fontes: thegreenpapers.com; politico.com e Partido Democrata.

Próxima disputa

Em New Hampshire, assunto do próximo post, a fórmula da disputa é mais simples por se tratar de uma "primária", ou seja, com votação simples de qualquer eleitor do Estado, filiado ou não. No Partido Republicano, os delegados compromissados, ou "pludged", são divididos proporcionalmente entre os candidatos de acordo com o resultado da votação no estado inteiro, e não de cada "precinct" ou condado, o que agiliza e facilita a apuração. No caso do Partido Democrata há uma divisão de alguns delegados de acordo com a votação geral nos dois Condados, enquanto outros delegados também são divididos de acordo com a votação geral do Estado, o que, em comparação com o complexo sistema do partido em Iowa, se torna bem mais simples.

No partido republicano, porém, vencer no estado será de fundamental importância em número de delegados. Diferentemente de Iowa, após a distribuição dos delegados pela % de cada candidato, os que sobram vão todos para o vencedor. Em Iowa os delegados restantes foram distribuídos um a um para os candidatos que tiveram uma fração mais próxima do número inteiro seguinte. Isso pode dar uma diferença de até cinco ou seis delegados entre o primeiro colocado e os demais. Além desse detalhe, existe uma exigência mínima de 10% dos votos para que os candidatos tenham direito na partilha dos delegados. Já no Partido Democrata o mínimo exigido é de 15%, porém todos os delegados são divididos proporcionalmente, devendo o número final ficar tão apertado quanto em Iowa.

No próximo post será detalhada a fórmula de disputa e as pesquisas em New Hampshire.

Daniel Mercer.


domingo, 7 de fevereiro de 2016

Resultados em Iowa - Partido Republicano


Numa semana repleta de acontecimentos, se iniciaram as prévias das eleições presidenciais americanas. Em Iowa foram muitas as surpresas, mas quem acompanha esta campanha há algum tempo, já esperava algumas reviravoltas, apesar de não tão drásticas. Como escrevi no último post, a disputa seria apertada e o resultado pouco decisivo, porém serviria de termômetro para as próximas prévias e deixaria claro quem continuaria forte na disputa e quem desistiria. Neste quesito em especial, anunciaram a desistência os candidatos republicanos Mark Huckabee, Rand Paul e Rick Santorum. Pelo lado democrata o candidato Martin O’Malley anunciou a desistência ainda durante a apuração na madrugada de terça-feira.

Partido Republicano

No partido republicano, o empresário e midiático Donald Trump não conseguiu confirmar a boa liderança nas pesquisas no estado que vinha tendo desde dezembro e acabou perdendo para Ted Cruz. Pesaram contra Trump dois fatores: seus simpatizantes são tradicionalmente pessoas que nunca votaram ou participaram de algum "caucus" anteriormente e, aparentemente, preferiram ficar em casa na fria noite de inverno da última segunda-feira. Outra questão que pesou foi identificada pela pesquisa da Emerson College realizada no dia do caucus: na semana anterior Trump não participou do último debate antes do início das prévias, realizada pela FoxNews. Ela é a maior emissora de notícias dos Estados Unidos desde que ultrapassou a CNN em 2002 e ele alegou uma suposta perseguição da mediadora em debate realizado no ano passado.

Em vez de participar do debate, em que foi duramente criticado por seus adversários, fez comício próximo ao local do debate e teve seu evento transmitido pela CNN e pela MSNBC, as duas outras grandes redes de notícias do país. Num primeiro momento muitos pensaram: "ah, mas ele ganhou a atenção sozinho de duas emissoras de TV, enquanto que todos os outros candidatos dividiram a atenção em uma única emissora". Acontece que, em primeiro lugar, a emissora do debate é a preferida dos republicanos por ser mais conservadora que as outras duas que são reconhecidamente mais "progressistas. Em segundo lugar, de acordo com a pesquisa da Emerson, mencionada anteriormente, 65% dos eleitores republicanos de Iowa assistiram ao debate, enquanto que apenas 35% tiveram conhecimento e sintonizaram a TV para verem o discurso de Trump. Ou seja, o que parecia uma boa estratégia se mostrou desastrada e com resultados ruins.

Outra questão que pode ter pesado, é o fato de que os moradores de Iowa são pessoas mais tradicionais e que preferem o contato direto do candidato ao invés de campanhas mais midiáticas. Ted Cruz e Marco Rubio se dedicaram bastante ao "corpo a corpo" com os eleitores nas últimas semanas, o que pode ter surtido efeito em favor deles.

Marco Rubio, inclusive, foi considerado por grande parte dos analistas e emissoras de TV dos Estados Unidos, a grande surpresa do caucus. O Senador do Texas era considerado carta fora do baralho, um candidato que teve seu momento de maior visibilidade entre maio e junho do ano passado, quando se manteve na liderança das pesquisas ao lado de Jeb Bush. Porém, quando Trump passou a monopolizar o discurso e os holofotes, ambos afundaram nas pesquisas e passaram a fazer figuração, apesar de Rubio sempre mostrar segurança e excelentes participações nos debates desde então. O resultado em Iowa o coloca dentre os três maiores nomes do Partido Republicano no momento e com bastante cobertura da mídia. O problema é que agora ele passa da condição de pedra para vidraça e o debate de sábado na rede ABC News já mostrou que não terá vida fácil. Rubio foi alvo de Ted Cruz, Jeb Bush, Trump e do Governador de Nova Jersey Cris Christie, que acusaram sua suposta inexperiência para ser Presidente da República. Pela primeira vez nos debates precisou ficar na defensiva e acusou o golpe, se mostrando bastante nervoso e com um discurso claramente decorado sobre o assunto. Pode ter freiado o seu crescimento dos últimos dias.

O resultado final

Abaixo o resultado final divulgado pelo Partido Republicano com a votação popular de cada candidato e a quantidade de delegados que conquistaram proporcionalmente para a Convenção Nacional em julho. Foram 186.932 eleitores em todo o estado de Iowa, recorde do partido:

1º Ted Cruz
6º Jeb Bush
Voto Popular
%
Delegados
Voto Popular
%
Delegados
51.666
27,63%
8
5.238
2,80%
1
2º Donald Trump
7º Carly Fiorina
Voto Popular
%
Delegados
Voto Popular
%
Delegados
45.429
24,30%
7
3.485
1,86%
1
3º Marco Rubio
8º John Kasich
Voto Popular
%
Delegados
Voto Popular
%
Delegados
43.228
23,12%
7
3.474
1,85%
1
4º Ben Carson
9º Mike Huckabee (desistiu)
Voto Popular
%
Delegados
Voto Popular
%
Delegados
17.394
9,30%
3
3.345
1,78%
1
5º Rand Paul (desistiu)
Voto Popular
%
Delegados
8.481
4,53%
1


Os candidatos Cris Christie com 3.284 votos (1,76%), Rick Santorum com 1.779 (0,95%) e Jim Gilmore com 12 votos (0,01%) não obtiveram votos suficientes para conquistar delegados para a convenção. Rand Paul, Mike Huckabee e Jim Gilmore abandonaram a campanha.

No próximo post será detalhado o resultado do Partido Democrata em Iowa e a expectativa para a próxima prévia terça-feira em New Hampshire.

Fontes: Site Oficial do Partido Republicano e thegreenpapers.com

Daniel Mercer.

O perigo socialista no país mais livre do mundo.



         Hoje lendo um artigo de alguns meses atrás do Rodrigo Constantino, me deparei com uma frase esclarecedora, dita há quase 70 anos pelo líder socialista Norman M. Tomas: “O povo americano nunca vai adotar conscientemente o socialismo, mas sob o nome de ‘liberalismo’, adotará cada fragmento do programa socialista até que um dia a América será uma nação socialista sem saber o que aconteceu”.

E foi utilizando o termo liberalismo (ou "liberalism", em inglês), que os socialistas conseguiram primeiro dominar o Partido Democrata e depois dominar o próprio discurso do país nos últimos anos. Hoje o Partido Democrata tem dois postulantes com discurso socialista para suceder o também socialista Barack Obama: Hilary Clinton e Bernie Sanders, em que o segundo se mostra mais à esquerda que a primeira, e ainda acusa Hilary e Obama de defenderem as grandes corporações. Não existe comunista satisfeito, eles sempre querem mais.

O grande problema é que Sanders começa a ganhar terreno na indicação dos Democratas e promete ampliar muito a prática socialista de Obama. Propostas como aumento de impostos, perseguição às grandes multinacionais americanas e a criação e o aumento de práticas assistencialistas por parte do governo, irão aproximar a maior potência do mundo do fracasso comunista do século XX e da própria América Latina. O “Obamacare” foi apenas o começo, Sanders quer universidades estatais americanas, estatização dos presídios federais e bastante controle no sistema financeiro, ou seja, para ele quanto mais Estado melhor. Uma ameaça não só à economia americana, mas a milhões de empregos existentes nos mais diferentes países, vindos das multinacionais americanas que terão seus negócios bastante dificultados.

O que me deixa um pouco mais tranquilo é que existem dois grandes entraves para Bernie na corrida à Casa Branca: em primeiro lugar, e mais importante, é que ele não tem história alguma no Partido Democrata. Foi um político independente durante toda a vida e apenas se filiou ao partido no ano passado, unicamente para concorrer à eleição com maiores chances do que se tentasse uma candidatura independente - como fez quando venceu a eleição para o Senado pelo Estado de Vermont. E isso o deixa muito fraco dentre os grandes políticos democratas, que não veem nele convicção para defender o partido. Deste modo, a grande favorita se torna Hillary, que tem o apoio de praticamente todo o partido, incluindo Senadores, Governadores, membros representantes da câmara baixa e do próprio Presidente Obama – que não se pronunciou oficialmente, mas colocou todo o staff político na campanha dela, o que torna quase impossível uma indicação de Sanders para a eleição geral, mas preocupa para futuras disputas.

        Todos sabem que os socialistas criam um discurso por anos ou décadas, até conseguir os objetivos de poder total e irrestrito e, só então, passam a perseguir seus adversários políticos. Inclusive conseguem dominar todo o discurso da esquerda, destruindo politicamente qualquer outro oponente que participa de ideologia parecida, mas que seja considerado moderado. Temos um grande e triste exemplo em casa e Sanders pode ser apenas o político que plantou a grande semente populista no Partido Democrata. É impressionante a quantidade de jovens em sua campanha, muito parecida à época das "Diretas Já" no Brasil e no Impeachment do Presidente Collor, em que uma grande massa de estudantes e jovens se entregavam ao discurso da esquerda, o que torna um fenômeno com previsão ruim para as futuras eleições, mas não necessariamente para a atual.

Em segundo lugar, os candidatos conservadores do Partido Republicano já perceberam a ameaça crescente ao futuro do país e já começaram a debater assuntos realmente importantes, ao invés de ficarem apenas focados no midiático Donald Trump - centro dos ataques em debates anteriores. No debate de ontem, na rede ABC News, tanto Marco Rubio quanto Ted Cruz, Ben Carson, Jeb Bush e o próprio Trump – só para citar os que ainda tem alguma chance – debateram muitos assuntos que contrapõem totalmente o discurso com o de Bernie: o liberalismo econômico clássico, combate ao Estado Islâmico, o perigo nuclear na Coréia do Norte e no Irã, imigração, segurança pública, sistema de saúde e até questões econômicas com a China. Todos assuntos importantes que batem de frente com o discurso socialista de Sanders (para se ter ideia ele defendeu, há alguns dias, diplomacia na questão do Estado Islâmico, deixando para os países vizinhos a tarefa da resolução do problema, enquanto os terroristas ameaçam a paz no mundo e degolam civis ocidentais, incluindo americanos).

Hoje, somente um candidato Republicano pode salvar os EUA do mal que dominou a URSS no século XX e boa parte do mundo, incluindo alguns países do nosso continente, diminuindo sua liberdade (tanto econômica quanto social). E é evidente que sendo a liberdade americana ameaçada, o mundo inteiro se torna menos livre. Que "Deus abençoe a América"¹ e tenha piedade de todos nós.


¹Menção ao hino "God Bless America" de Irving Berlin, e usualmente citado em diversos discursos de vários presidentes americanos.

Artigo do Rodrigo Constantino citado no início do texto:
http://rodrigoconstantino.com/resenhas/de-jkf-a-obama-a-radicalizacao-da-esquerda-americana/

PS: Este artigo foi escrito originalmente no dia 14 de janeiro, cerca de duas semanas antes do início das prévias americanas – e quando o Democrata Bernie Sanders se tornava uma ameaça apenas para sua principal oponente.

Daniel Mercer.


domingo, 31 de janeiro de 2016

Eleições primárias em Iowa


         Iowa é um estado do centro-oeste dos Estados Unidos com pouco mais de 3 milhões de habitantes. Apesar de ter uma população majoritariamente branca (92%) e de religião protestante (62%), nas últimas décadas tem dado vitórias a vários candidatos democratas nas eleições gerais. Desde 1984, na reeleição do presidente Reagan, apenas George W. Bush, também em sua reeleiçao, conseguiu uma vitória no estado para os republicanos. Apesar disso, atualmente o Governador do estado e os dois Senadores são do Partido Republicano, o que pode representar resultados diferentes em novembro. O estado possui 99 condados e 7 representantes no colégio eleitoral.

Existe uma importância relativa no "caucus" de Iowa (palavra de origem indígena que não tem tradução para o português, mas que pode ser entendida como conselhos, assembleias ou reuniões). Nessas reuniões, que acontecem em escolas, igrejas, ginásios e outras repartições públicas ou privadas, apenas militantes engajados escolhem os candidatos que serão representados pelos delegados do estado na Convenção Nacional de cada partido (há a necessidade de filiação partidária e, em alguns casos, inscrição prévia para poder participar das assembleias).

Em alguns anos, como em 2008 na vitória de Barack Obama sobre Hillary Clinton, um azarão pouco conhecido pode ter a sua campanha amplamente catapultada quando obtém uma boa vitória no estado. Em outros casos, como o de Nick Santorum, do Partido Republicano em 2012, acaba por não contribuir muito na corrida.

Hoje se inicia em Iowa uma disputa que pode se tornar histórica, tanto no Partido Republicano quanto no Democrata. No primeiro, o empresário Donald Trump aparece como favorito há algum tempo e seus adversários têm oscilado muito (Jeb Bush, Bem Carson, Marco Rúbio e, agora, Ted Cruz, já foram seus principais adversários). Já no Partido Democrata, uma eleição que parecia ter candidatura única (Hillary Clinton), principalmente quando o vice-presidente Joe Biden anunciou que não concorreria à Casa Branca, passou a ter um forte concorrente para a ex primeira-dama: Bernie Sanders. Nos últimos meses Sanders chegou a tirar uma vantagem de mais de 40% de Hillary e passou a ter grandes chances de vencer em Iowa e se torna o grande favorito em New Hampshire, apesar de ainda estar bem atrás em outros estados.

Como acontece

Ao contrário do que alarma a imprensa, a quantidade de delegados que cada candidato terá de Iowa na convenção não será escolhida amanhã. No caucus são escolhidos os delegados que representarão cada candidato na convenção dos distritos de cada partido em Abril e somente em Junho serão realmente revelados, numa convenção estadual, os delegados que cada candidato terá na convenção nacional. E até lá são muitos os candidatos que saem da disputa e passam a apoiar outros, modificando muito o resultado do cáucus Porém, é inegável que a disputa dá ao vencedor um grande status, ganhando força para as disputas posteriores.

Partido Republicano

As assembleias acontecem nesta segunda-feira e dão uma projeção na escolha dos delegados para a convenção municipal. Este acontece em 12/03 e indicam os delegados na convenção dos distritos no dia 09/04, que por sua vez indicam os delegados da convenção estadual que acontece em 21/05.

Durante estes meses em que ocorrem várias convenções, muitos dos candidatos vão desistindo, apoiando outros candidatos, e o "caucus" original deixa de fazer sentido frente ao resultado final na convenção. Em 2012, por exemplo, o candidato Nick Santorum venceu a eleição em Janeiro, tendo Mick Romney em segundo e Ron Paul em terceiro. Com a desistência de Santorum, a maioria dos delegados foram escolhendo Ron Paul, apesar de Santorum ter apoiado Romney formalmente algumas semanas antes da convenção estadual. Ao final da definição dos delegados, Ron Paul obteve 22 votos contra 6 de Romney no colégio eleitoral, apesar de ter ficado em terceiro nas assembleias originais em janeiro, já que os delegados que votariam em Santorum não são obrigados a votarem no candidato apoiado por ele, mas certamente votariam nele se mantivesse a candidatura, respeitando a decisão do colegiado nas primárias.

Datas do Partido Republicano em Iowa:
  • Assembleias (caucus) – 1º de Fevereiro;
  • Convenção nos Municípios ou Condados – 12 de Março;
  • Convenção nos Distritos Estaduais – 09 de Abril;
  • Convenção Estadual – 21 de Maio.
  • Delegados em Disputa: 30.

Média das Pesquisas Eleitorais para Iowa (entre 23/01 à 29/01):
  • Donald Trump – 30,4%;
  • Ted Cruz – 24,2%;
  •  Marco Rubio – 15,2%;
  • Ben Carson – 8,8%;
  • Jeb Bush – 4%;
  • Ron Paul – 3,2%;
  • John Kasich – 2,6%;
  • Mike Huckabee – 2,6%;
  • Demais candidatos somados – 6%.

Próximas prévias do partido:
  • New Hampshire – 9 de Fevereiro;
  • Carolina do Sul – 20 de Fevereiro;
  • Washington – 20 de Fevereiro;
  • Nevada – 23 de Fevereiro.

Partido Democrata

Na eleição de 2008 foi em Iowa que o desconhecido e azarão candidato Barack Obama surpreendeu e venceu as assembleias do estado. Foi o início da virada sobre a favorita Hillary Clinton, numa disputa que só foi decidida na convenção nacional do partido.

Portanto o "caucus" que ocorrem nesta segunda em Iowa tem um importante apelo simbólico na campanha. Um resultado muito apertado não tem resultado prático na disputa, porém uma vitória surpreendente e com boa margem de um azarão pode iniciar um caminho rumo à Casa Branca. Nesse sentido, os candidatos Donald Trump e Hillary Clinton, franco favoritos dentro de seus partidos, têm mais a perder que a ganhar em Iowa, enquanto que os demais candidatos apostam todas as suas fichas no estado, para se fortalecerem para as próximas prévias.

Datas do Partido Democrata em Iowa:
  • Assembleias – 1º de Janeiro;
  • Convenção nos Municípios ou Condados – 12 de Março;
  • Convenção nos Distritos Estaduais – 30 de Abril;
  • Convenção Estadual – 18 de Junho.
  • Delegados em disputa – 52.

Média das Pesquisas Eleitorais para Iowa (entre 23/01 à 29/01):
  • Hillary Clinton – 47,3%;
  • Bernie Sanders – 44%
  • Martin O’Malley – 4,4%

Próximas prévias do partido:
  • New Hampshire – 9 de Fevereiro;
  • Nevada – 20 de Fevereiro;
  • Carolina do Sul – 27 de Fevereiro.


Fontes de pesquisa: 
http://www.realclearpolitics.com/
http://www.thegreenpapers.com/


Início da corrida eleitoral nos Estados Unidos.


Nesta segunda-feira se inicia a corrida americana para as eleições presidenciais que ocorrem em 8 de novembro. Após vários meses de disputa na pré-campanha para as primárias que se iniciam, já dá para tirar algumas conclusões sobre a disputa, tanto no Partido Republicano quanto no Democrata.

Partido Republicano

Em Iowa, primeira prévia, a disputa está acirrada e as pesquisas indicam uma vantagem de cerca de 5% para Donald Trump, o excêntrico empresário que passou vários meses atacando os demais candidatos do partido, muitas vezes de forma grosseira, e até já ameaçou deixar o partido e lançar uma candidatura independente à Casa Branca, o que fatalmente dividiria o voto dos conservadores e daria a vitória ao Partido Democrata.

Contra várias análises, até mesmo de republicanos, Trump tem se mantido forte na disputa e parece ser o único candidato já garantido numa campanha que poderá se arrastar por meses. Vários foram os candidatos que despontaram nas pesquisas, mas que foram perdendo terreno ao longo dos últimos meses: Jeb Bush, Ben Carson, Marco Rúbio e agora Ted Cruz. Este último chegou a liderar durante boa parte de dezembro em Iowa, mas caiu alguns pontos e estacionou cerca de 5% das intenções de voto atrás de Trump durante todo o mês de janeiro.

No entanto, é comum que as pesquisas errem as projeções de votos em vários estados americanos, principalmente no sistema que ocorre em Iowa, em que apenas militantes dos partidos votam em assembleias fechadas, decidindo quais candidatos terão maioria dos delegados nas convenções do partido. Em 2012, na véspera da eleição, as pesquisas indicavam vitória de  Mitt Romney nas prévias de Iowa com 6% de vantagem. Porém o vencedor, por apenas 34 votos, foi Rick Santorum, que aparecia em terceiro lugar nas pesquisas.

Nesta segunda o resultado deve ser apertado, e como os delegados de cada candidato são divididos proporcionalmente, quem vencer não terá grande vantagem na indicação deles no estado. O que começará a ser definido, como sempre ocorre, são os candidatos que têm poucas chances para continuar e que desistirão já nas próximas semanas. Hoje o partido Republicano tem 12 candidatos em disputa, poucos com reais chances, e a desistência, já nas primeiras prévias, de nomes como Jeb Bush, Ben Carson e Rick Santorum, em especial se definirem apoiar um candidato único contra Trump, poderá embaralhar bastante a disputa. Trump tem se mantido firme na liderança da disputa, mas não parece ter força suficiente para vencer sozinho contra uma aliança dos demais candidatos, que ele atacou bastante durante toda a pré campanha em 2015.

Esta inclusive é minha aposta: se o partido Republicano se mantiver dividido, com várias forças políticas disputando o mesmo eleitorado, Trump vence. Se todos os demais se unirem em torno daquele que se mostrar mais forte, Trump perde. O problema é definir quem é o mais forte dentre os demais, já que ao longo da campanha, como citado anteriormente, Bush, Carson e Rúbio chegaram a ameaçar a liderança do empresário, mas pereceram ao longo da disputa. Atualmente o principal desafiante é Ted Cruz, mas a dúvida é se ele manterá o bom desempenho ou dará lugar a outro desafiante na disputa.

Como conservador, espero que o partido defina seu candidato sem muita briga entre seus postulantes, já que o adversário real está do outro lado, não dentro do partido. Na minha opinião, Donald Trump tem reais chances de vitória, tanto dentro do Partido Republicano como na disputa nacional, porém não é o melhor candidato. Suas recorrentes agressões aos demais concorrentes e ao exagerado ataque a todos os imigrantes no país, tem dado um ar antipático à sua campanha, fazendo com que grande parte do eleitorado independente americano prefira um candidato democrata, mesmo que seja um socialista confesso – como é o caso de Bernie Sanders. Antes de atacar os imigrantes como um todo, deveria ter passado alguns meses explicando o risco que se tem manter milhões de pessoas de outras nacionalidades sem qualquer tipo de registro. Alguns bairros de grandes cidades americanas se transformaram em verdadeiros guetos de mexicanos ou muçulmanos, sem que as autoridades soubessem se elas são fugitivas em seus países, se cometeram algum tipo de crime ou se participam de algum grupo terrorista. Mas, infelizmente, o candidato está mais preocupado em atacar do que em iniciar um debate necessário sobre o tema.

Partido Democrata

No partido Democrata, a disputa é bem mais complexa e envolve uma quantidade maior de disputas que dividem as eleições por distritos, por isso não dá para se basear por pesquisas que medem o eleitorado geral em cada estado, pois a divisão dos votos é por distrito. Porém, o fato de haverem apenas dois candidatos com chances reais, facilita um pouco nas projeções para cada um.

Quem dissesse há um ano que existia alguma possibilidade da candidata Hilary Clinton não ser a indicada pelo partido democrata ao fim da disputa, poderia ser tachado como maluco ou, no mínimo, um comunista otimista, fã do Sanders - nem a imprensa brasileira citava algum real concorrente. Hoje apenas 3% das intensões de voto separam Hillary Clinton de Bernie Sanders no estado de Iowa - primeira prévia do partido que se iniciará hoje. A eleição nos distritos de Iowa pode sair empatada, cada candidato com o mesmo número de delegados, o que poderá se transformar numa grande derrota para Hilary, que já chegou a aparecer com quase 40% de vantagem nas pesquisas há cerca de cinco meses.

Em New Hampshire, próxima prévia do Partido Democrata, Sanders já aparece como uma vantagem de 14%. Em 2008 Hilary era grande favorita no partido, porém foi em Iowa, na primeira prévia, que um desconhecido Senador chamado Barack Obama começou a ganhar força e a dividir as atenções do eleitorado, até vencer a indicação na convenção nacional vários meses depois. Duas derrotas, nas duas primeiras prévias, quando todos imaginavam que o partido teria apenas uma candidatura, pode atrapalhar muito as pretensões da ex primeira dama e ex Secretária de Estado.

Muitos apoiadores de Hillary admitem que o discurso comunista de Sanders, muito mais à esquerda ideologicamente que ela, culpando os bancos e as grandes empresas nacionais por problemas na economia e defendendo aumento de impostos para vários setores, está atraindo muita atenção do eleitorado democrata. Ela tem tentado contrapor as ideias com um discurso realista, mostrando que as propostas dele não são viáveis, mas não tem tido muito sucesso.

O mês de fevereiro é muito importante para a definição nos dois partidos. A "grande terça" do dia 1° de março poderá dar um ponto final à grande parte das candidaturas, deixando apenas aqueles com reais chances de vitória e clareando bastante o caminho a ser percorrido por cada um. E aqueles que obtiverem bons resultados este mês chegará forte nas prévias mais importantes e decisivas de março.