quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

And the Oscar goes to... "Moonlight: Sob a Luz do Luar".

“Moonlight: Sob a Luz do Luar” é uma junção de drama juvenil, mostrando desde o tráfico de drogas em comunidade pobre, com a mãe do protagonista dependente química, violência doméstica, bullying escolar quando ainda criança e romance gay adolescente. Tudo junto e misturado, mas na medida, com bom senso e sem exageros.

Chiron é uma criança pobre, que sofre bastante durante sua infância com a mãe Paula (Naomi Harris) usuária de drogas. Conhece o traficante Juan (Mahershala Ali) que o ajuda em alguns momentos de sua vida, principalmente quando não tinha onde passar a noite ou quando sua mãe o expulsava de casa. Juan e sua mulher Teresa (Janelle Monáe) tratam Chiron como sendo da família, se tornando sempre um porto seguro para o personagem principal em momentos de dificuldade. Mesmo depois da morte de Juan, que não é retratado no filme, apenas citado, Teresa continua recebendo Chiron em sua casa, tendo um quarto sempre à sua disposição. A história possui três fases distintas, em que Chiron é interpretado por atores diferentes: infância (Alex Hibbert), adolescência (Ashton Sanders) e fase adulta (Trevante Rhodes), este já como “Black”, conhecido e respeitado traficante local.

Particularmente, eu acho os filmes de Hollywood que tratam o tema da homossexualidade, no geral, bastante exagerados e caricatos. Um exemplo disso é o já clássico “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), que na época quis mais polemizar do que realmente mostrar as relações homoafetivas de forma real, já que apelou para cenas bastante fortes – e que só se vê em filmes pornôs, quando heterossexuais – numa época em que o tema ainda era pouco abordado. A proibição em diversos países árabes, do Caribe e em redes de cinema nos Estados Unidos ajudou na divulgação do filme e na estridência de ativistas, mas não muito em tentar diminuir o preconceito que ainda existe, mas que tem diminuído com o tempo. Já em “Clube de Compras Dallas” (2013), a homossexualidade é apenas mostrada de forma secundária, já que o foco principal é o combate à AIDS, devido aos primeiros grupos de risco da doença e de toda a discriminação sofrida pelos gays à época, e acabou tendo uma recepção crítica bem melhor. “Moonlight: Sob a Luz do Luar” está neste segundo grupo, não tendo o tema como central, sem a intenção de polemizar o assunto, mas o abordando de forma natural e singela, sem exageros ou caricaturas e mostrando as coisas como elas ocorrem na vida real.

O longa é baseado na obra do dramaturgo Tarell Alvin McCraney, “In Moonlight Black Boys Look Blue”, em projeto apresentado na instituição “Yale School of Drama”, ligada à Universidade Yale e que o próprio McCraney preside. Nasceu como uma peça teatral e foi adaptada para o cinema pelo diretor e roteirista Barry Jenkins, que concorre ao Oscar nas categorias Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Diretor, merecidamente. Por sua vez, acho bem exagerado o favoritismo de Mahershala Ali ao Oscar de melhor ator coadjuvante – venceu o Critics Choice e o prêmio do Sindicato dos Atores, mas não tem grandes concorrentes na categoria – talvez Dev Patel, por “Lion: Uma jornada para casa” ou Aaron Taylor Johnson, por "Animais noturnos", vencedor do Globo de Ouro. Não consegui identificar no filme uma atuação incontestável ou cenas que possam justificar tal favoritismo, a não ser, de fato, falta de concorrência.

Além das categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado, o longa concorre em quatro outras categorias: Melhor Atriz Coadjuvante (Naomi Harris), Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora. Tirando o favoritismo de Mahershala Ali e boas chances com o roteiro, não deve disputar com força nenhuma outra estatueta. Mas, por ter vencido o Globo de Ouro de Melhor Filme no gênero drama, e por ter grande apelo racial, o filme pode até surpreender na premiação. Como esquecer a campanha #OscarSoWhite do ano passado? A Academia este ano está com uma tendência a fazer um “mea culpa” e parece estar motivada a entrar no mundo do “politicamente correto”. Vamos esperar para ver o que acontece. Não é, nem de longe, o meu predileto. Mas não há dúvidas que tem suas qualidades e merece estar entre os indicados.

No Oscar 2017:

Grandes chances: Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali) e Melhor Roteiro Adaptado (Barry Jenkins);
Boas chances: Melhor Filme;
Outras categorias: Melhor Diretor (Barry Jenkins), Melhor Atriz Coadjuvante (Naomi Harris), Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora.

Daniel Mercer.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

And the Oscar goes to... "Manchester À Beira-Mar".

“Manchester À Beira-Mar” é um filme forte, dramático, com uma história triste, cativante e muito emocionante. Conta a história de Lee (Casey Affleck, irmão mais novo de Ben Affleck), que morava com sua família na pequena cidade de Manchester-by-the-sea (ou simplesmente Manchester, com pouco mais de 5 mil habitantes), no estado de Massachussets, até cometer um grave erro que mudou para sempre a sua vida e a vida das pessoas ao seu redor. Após a tragédia, Lee, que se mostrava uma pessoa pacata, porém brincalhona, sociável, com vários amigos e amoroso com a família, se tornou antissocial, sem amigos e bastante distante do que restou da sua família e amigos. Em pelo menos dois momentos do filme ele se mostra autodestrutivo, buscando brigas em bares, aparentemente para sair um pouco do estado mórbido em que passa a maior parte do seu tempo.

Sistemático, fala o tempo todo em logística, em como organizar e resolver as situações de maneira mais prática possível, sem se preocupar muito com as emoções. Com a morte de seu irmão Joe (Kyle Chandler), se vê obrigado a cuidar do seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges), já que se torna seu tutor. Seu irmão havia planejado tudo: gastos para mudança de Boston para Manchester, custeio mensal para o período de adaptação, gastos menores do dia a dia com o seu filho, dinheiro para a faculdade, dentre outros. Só não discutiu previamente com o irmão que ele ficaria no seu lugar após sua morte. O roteiro se desenrola em torno desta relação tio-sobrinho, enquanto a história pregressa de Lee se passa em flashbacks bem chocantes, no que o filme mostra sua grande virtude: consegue extrair o melhor do drama familiar sofrido pelo protagonista, sem exagerar na dose. Ponto para o diretor Kenneth Lonergan, também roteirista, que, não por acaso, concorre ao Oscar de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original com muito mérito. As falas curtas dos personagens, muitos momentos de silêncio e a riquíssima linguagem corporal, são a tônica do longa, que não se preocupa em mostrar estereótipos, histórias de superação ou um final feliz. É um filme que tenta, com sucesso, mostrar uma história mais próxima da vida real possível, com personagens de carne e osso e sem apelar para o lado emocional. É, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano, que pode premiar Casey Affleck com o Oscar de Melhor Ator.

“Manchester À Beira-Mar” é mais um filme com baixo custo que concorre na categoria de Melhor Filme (apenas 8,5 milhões de dólares, custo comparável com alguns filmes brasileiros). Concorre ao Oscar em seis categorias: além de Melhor Filme, Diretor e Ator, com Casey, concorre à Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michele Williams, no papel da ex-mulher de Lee) e Melhor Roteiro Original (Keneth Lonergan). Tem grandes chances apenas com Casey Affleck, que tem Denzel Washington como maior concorrente – venceu quase todas as premiações de Melhor Ator, mas perdeu o SAG (premiação do Sindicato do Atores, maior termômetro do Oscar), e pode chegar enfraquecido no dia da premiação.

No Oscar 2017:

Grandes chances: Melhor Ator (Casey Affleck);
Outras categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor (Keneth Lonergan), Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michele Williams) e Melhor Roteiro Original (Keneth Lonergan).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

And the Oscar goes to... "Um Limite Entre Nós".

“Um Limite entre Nós” (Fences, em inglês) é mais um daqueles filmes em que o título em português foi modificado totalmente, sem explicação e sem fazer muito sentido. É o tipo de situação que, num mundo globalizado, em que as pessoas procuram cada vez mais informações em inglês, mesmo que fazendo uso de tradutores online, só confunde e atrapalha quem procura dados sobre o filme. Em se tratando de uma adaptação do teatro para o cinema a coisa piora, já que a peça teatral só é conhecida como “Fences” e acaba não tendo ligação alguma com o título em português. Quem será que faz este tipo de coisa e qual o ganho isso tem para a divulgação do filme? “Fences” (cercas em inglês) é um título muito mais apropriado, que nos leva a dois sentidos no desenrolar do enredo: a cerca física, que é construída ao longo da trama pelo protagonista, e pela barreira criada, esta invisível, entre ele e sua esposa, ocasionada pelas suas escolhas.

“Fences” é uma peça teatral criada em 1983 pelo dramaturgo August Wilson para a Broadway. Faz parte de uma série de peças teatrais – dez no total – que recebeu o nome Pittsburg Cycle – Ciclo de Pittsburg –, já que nove dos dez ensaios se passam na cidade homônima, segunda maior do estado da Pensilvânia e considerada uma importante comunidade afrodescendente, com cerca de 26% da cidade formada por afro-americanos. É a cidade onde nasceu Wilson, que também é o roteirista da adaptação de “Fences” para o cinema, vencendo o importante prêmio Politzer em 1987.

“Um Limite Entre Nós” tem como protagonista Troy (Denzel Washington), um personagem extremamente mal humorado e irritadiço, frustrado por não ter conseguido fazer carreira na liga de basebol para negros quando jovem – na época a Liga Nacional de Basebol, Major League Baseball, ainda não permitia atletas negros inscritos. Troy culpa o racismo pelo seu insucesso, já que acredita ser melhor, mesmo aos 53 anos, que a maioria dos atletas brancos da MLB, não tendo tido sucesso apenas por causa da sua cor. A sua prisão, ainda enquanto jovem, devido a um assassinato ocasionado num assalto, acabou jogando por terra qualquer chance de sucesso na carreira esportiva.

Troy é casado com Rose (Viola Davis), uma dona de casa dedicada aos cuidados do marido e da criação do filho. Ambos moram com o filho Cory – que sonha ser jogador de futebol, mas é constantemente boicotado pelo pai, que teme que seu insucesso seja repetido por ele – e com o irmão mais novo Gabriel, um soldado de guerra, que possui sequelas neurológicas visíveis.

O roteiro é bom. Denzel, que já havia participado como ator da peça teatral entre 2010 e 2016 (juntamente com todo o elenco do filme), dá show de interpretação, mas peca na direção, também feita por ele. De fato, poucos são os atores ou diretores que conseguem fazer com maestria as duas coisas – e Denzel ainda é coprodutor do filme. Denzel se mostra muito à vontade no papel, bastante desenvolto e encarna o personagem com muita propriedade. Porém, os monólogos apresentados por Troy são, muitas vezes, cansativos e enfadonhos. O filme é pouco dinâmico e dá a impressão que estamos assistindo a uma peça teatral e não a um filme. O roteiro, bem pouco modificado por Wilson, poderia ter sido melhor adaptado para o cinema. A Direção de Arte do filme também é limitada, pois devia ter explorado melhor o ambiente interno da casa, já que o foco acaba sendo sempre o quintal, onde quase todas as cenas acontecem, em especial as principais discussões – mais uma prova que a direção manteve os mesmos cenários do teatro, com pouquíssimas modificações.

O filme acaba sendo um show de interpretação de Denzel e Viola, que concorrem ao Oscar nas categorias Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. Viola Davis tem se tornado a grande favorita na categoria, já tendo vencido o “Critics Choice”, o Globo de Ouro, o SAG (prêmio do Sindicato dos Atores) e o Bafta. Denzel corre por fora, tendo sido preterido em quase todas as premiações, mas vencendo o SAG, que é o grande termômetro do Oscar, tendo grande parte dos votantes membros da Academia. As outras categorias em que concorre, Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, não têm grandes chances.

No Oscar 2017:

Grandes chances: Melhor Atriz (Viola Davis);
Boas chances: Melhor Ator (Denzel Washington);
Outras categorias: Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado (August Wilson).

Daniel Mercer.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

And the Oscar goes to... "A Chegada".

O que aconteceria se seres extraterrestres chegassem à Terra de repente, sem nenhum contato anterior e sem que ninguém soubesse da sua existência? E se, ao invés de apenas uma nave, pousassem na Terra doze, cada uma numa região do planeta e houvesse a necessidade da ajuda mútua dentre as nações para decifrar o estranho idioma dos seres recém-chegados e qual as reais intenções deles? Aí parece que a coisa complica bastante. Enquanto as grandes histórias de ficção científica extraterrestre precisavam apenas dos EUA para serem solucionadas e salvar a humanidade, parece que as coisas eram bem mais simples.

É em torno desta grande confusão política mundial que está inserido "A Chegada", longa que concorre em oito categorias no Oscar 2017, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor (Dennis Villeneuve) e Melhor Roteiro Adaptado (Eric Heisserer), mas que curiosamente para um filme de ficção, não concorre ao Oscar de efeitos especiais. Este talvez seja o ponto que o filme deixa a desejar: talvez fosse melhor produzido, utilizando mais recursos, com mais tempo de preparação e mais efeitos especiais, é possível que tivesse se tornado grandioso. O longa peca em diversos pontos que poderiam ter sido mais bem explorados. O baixo custo de produção (U$ 47 milhões de dólares, contra um orçamento de U$ 165 milhões de dólares de “Independence Day: O Ressurgimento” e “Interestelar”, por exemplo) o limitou bastante, apresentando temas que foram melhor explicados em outros filmes. Um grande exemplo disso, foi não ter conseguido apresentar em imagens a relatividade temporal tão bem mostrada há dois anos em "Interestellar", este sim um grande clássico da ficção científica.

“A Chegada” tem muita conversa para pouca cena e o roteiro acaba girando em torno da história da protagonista Louise (Amy Adams), uma famosa linguista, chamada para tentar se comunicar com as criaturas. Louise passa grande parte do filme sofrendo com memórias sobre sua filha e seu casamento mal sucedido, memórias estas que dão forma à relatividade temporal do enredo, mas que acaba sendo muito mal trabalhado. Outro tema central, este um pouco melhor explorado, diz respeito ao estranho idioma dos extraterrestres, com símbolos cheios de detalhes e diferentes de tudo que nós conhecemos.

O roteiro é até bom, mas precisaria ter detalhado melhor pontos centrais da trama para dar vida a um grande filme. É legal, vale a pena pela qualidade artística – em especial Fotografia, Edição e Direção de Arte – mas não acrescenta em nada ao gênero sci-fi e não tem grandes atuações que possam fazer dele um bom drama. Não tem muitas chances aos prêmios que disputa no Oscar 2017 e sequer tem sido lembrado nas principais premiações, apenas tendo concorrido ao Globo de Ouro, nas categorias Melhor Atriz em Drama (Amy Adams) e Melhor Trilha Sonora, perdendo ambos, e ao próprio Oscar, em exageradas oito categorias.

No Oscar 2017:

Poucas chances: Melhor Direção de Arte, Melhor Edição, Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem.
Outras categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor (Dennis Villeneuve) e Melhor Roteiro Adaptado (Eric Heisserer).


Daniel Mercer.

And the Oscar goes to... "La La Land - Cantando Estações".

Assim como aconteceu nos últimos anos, dou início à maratona da corrida ao Oscar 2017 com análises dos principais filmes concorrentes. Quais as principais chances de cada um? Quais os melhores filmes? O que cada um tem de tão especial que mereça ser premiado? Quais as maiores curiosidades? Este ano, mais uma vez, a Academia misturou vários gêneros na categoria principal, o que deve contemplar os gostos pessoais de grande parte dos amantes do cinema. Porém, quanto mais diversificada é a premiação, mais imprevisível ela se torna. Também é comum, nestes casos, que os votos fiquem bem divididos dentre os concorrentes e não vença necessariamente o melhor, e sim aquele que não tem grandes rivais em um determinado gênero. Neste contexto, “La La Land - Cantando Estações” sai na frente, pois é o único musical concorrente e também não há comédias românticas disputando a categoria principal. Por sua vez, são muitos os dramas, que dividirão votos, deixando o musical com ainda mais chances.

La La Land – Cantando Estações.

E o primeiro texto da corrida é justamente dedicado a “La La Land – Cantando Estações”. O longa conta a história da jovem aspirante à atriz Mia (Emma Stone), que se mudou para Hollywood buscando seu grande sonho, mas que fracassa por seis anos em sucessivos testes, sem conseguir seu objetivo. Durante esta jornada, ela conhece o tecladista Sebastian (Ryan Gosling), que também tem um sonho: abrir sua própria casa noturna para que o Jazz clássico não morra. Numa união de fracassos profissionais em série de ambos, nasce um grande amor, retratado no filme de forma simples, mas bastante intensa.

Escrito e dirigido por Damien Chazelle, o diretor repete o sucesso de seu filme anterior “Whiplash – Em busca da perfeição” (2014), na qual também foi roteirista e diretor, concorrendo a cinco estatuetas – incluindo Melhor Roteiro Adaptado, para o próprio Chazelle, e Melhor Filme. Não venceu nas suas duas indicações pessoais, mas fez seu nome ficar conhecido e abriu importantes portas para La La Land, roteiro que idealizou em 2010, mas que não havia encontrado estúdios interessados em dar vida ao musical. A direção de Chazelle no filme é impecável, com várias cenas longas, dinâmicas e sem cortes – fórmula que ficou famosa em “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” -, e um casamento quase perfeito com o Diretor de Arte David Wasco – Pulp Fiction (1994); Kill Bill (2003) e Bastardos Inglórios (2009) - que utilizou figurinos e cenários com cores vibrantes, muita coreografia e bastante jogo de luz. A cena de abertura, com 30 dançarinos, 60 carros e mais de 100 figurantes, mostra a complexidade com que o filme foi produzido. Além disso, algumas cenas se transformam completamente apenas com a mudança de luz, em tomadas sem cortes, o que parece simples, mas causa grande impacto na parte artística do filme. É o grande favorito a diversos prêmios técnicos, como Edição, Design de Produção, Trilha Sonora, Fotografia e Canção Original - na qual concorre com duas músicas.

Ao todo, La La Land concorre em 14 categorias no Oscar 2017 – recorde histórico, igualando “Titanic” (1999), que venceu 11 prêmios, e “A Malvada” (All About Eve, 1950), vencedor em seis categorias. Também quebrou um recorde histórico no Globo de Ouro: foi premiado em todas as sete categorias em que concorreu, incluindo Melhor Filme, Melhor Atriz (Emma Stone) e Melhor Ator (Ryan Gosling), todos no gênero Comédia ou Musical. Também venceu os prêmios de Melhor Direção e Roteiro (Damien Chazelle) e tem se destacado nas premiações pré-Oscar, já tendo vencido o PGA (Sindicato dos Produtores) na categoria Melhor Produção de Longa Metragem; o SAG (Sindicato dos Atores) na categoria Melhor Atriz (Emma Stone) e DGA (Sindicato dos Diretores) na categoria Melhor Diretor (Damien Chazelle).

Por vários motivos, “La La Land: Cantando Estações” é um filme obrigatório para quem gosta do cinema clássico, mesmo para quem não gosta muito de musicais. O final não é dos mais “clichês” – e deixou muita gente decepcionada –, mas vale pelo conjunto da obra.

Para finalizar uma curiosidade: o nome do filme “La La Land” tem um duplo significado: remete à Los Angeles, onde fica Hollywood, já que o termo é usado como apelido para a cidade; também é uma expressão utilizada no sentido do nosso tão conhecido “mundo da lua”, para descrever uma pessoa que está desatenta, não está prestando atenção ou pensando em outras coisas. Seria como perguntar: “Where you are? In La-La Land?”. Com certeza, não há uma definição melhor para pessoas que estão apaixonadas, pois constantemente parecem estar vivendo em “La La Land”. Não é verdade?

No Oscar 2017:

Barbada: Melhor Edição, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original;
Grandes chances: Melhor Filme, Melhor Diretor (Damien Chazelle), Melhor Atriz (Emma Stone), Melhor Roteiro Original (Damien Chazelle), Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som;
Outras categorias: Melhor Ator (Ryan Gosling) e Melhor Figurino.

Daniel Mercer.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Trump x Clinton - A reta final.


Mapa eleitoral das Eleições presidenciais dos EUA, contando apenas os estados com vantagem de 5% para algum dos candidatos na média das últimas pesquisas. É a fórmula mais utilizada pela imprensa norte americana. Fonte: realclearpolitics.com


Na próxima terça-feira, dia 8 de Novembro, será decidida a eleição mais disputada em muitos anos nos Estados Unidos. Desde a disputa entre George W. Bush x Al Gore, em 2000, que não se chega às vésperas das eleições com tantos jornalistas e cientistas políticos mudando de opinião a cada dia sobre quem deverá ser o novo presidente americano. Neste post, irei me atentar especialmente aos números das últimas semanas, sobre as reais chances de ambos e como o "azarão" Donald Trump corre por fora para desbancar a, ainda, grande favorita Hillary Clinton, na última semana de campanha.


O mapa eleitoral atual.

Para começar, comentarei o mapa que ilustra o início do post. Se trata do mapa atual da eleição, levando-se em consideração uma margem de 5% de vantagem para um dos candidatos. Num cenário em que "vermelho" indica os estados com vantagem para Trump e "azul" os estados com vantagem para Hillary, com os tons de ambas as cores indicando que a vantagem está entre 5 e 10% (mais claro); entre 10 e 20% (tom médio) e acima de 20% (mais escuro), mostrando quais estados podem ou não mudar de cor nos próximos dias. A esta altura, os tons mais escuros consistem em vantagens consolidadas e dificilmente mudarão de lado. Os estados em "cinza" indicam os que não apresentam vantagem de 5% para nenhum dos candidatos e que, obviamente, decidirão a eleição. Ao decorrer do post publicarei e comentarei os mapas que não consideram a margem de 5% e que mostram uma tendência de virada de Trump e um declínio considerável da candidata democrata.

Mapa eleitoral de duas semanas atrás, quando a imprensa se dedicava mais aos "escândalos sexuais" de Trump, do que às trapalhadas de Hillary quando era Secretária de Estado. Alguns veículos já davam como vitória certa. Fonte: politico.com


Mapa eleitoral atual, depois dos debates e após o FBI reabrir as investigações sobre os 33 mil e-mails deletados do servidor pessoal de Hillary - que ela usava para não ser monitorada pelos órgãos oficiais. Fonte: realclearpolitics.com


Nos mapas acima podemos verificar que existe uma tendência de rápida aproximação de Trump no colégio eleitoral e um grande domínio nas regiões Sul, Centro e Meio-oeste, restando à Hillary os estados mais populosos e ricos do Nordeste e da Costa Oeste.


"Estados-pêndulo" (swing states).

Os "estados-pêndulo" - estados que geralmente não possuem uma tradição de voto em um dos dois partidos e que mudam de posição a cada eleição - tendem a decidir sempre que a disputa se mostra apertada como a atual. Nesta eleição, alguns serão mais decisivos que outros, seja devido a um número maior de delegados no colégio eleitoral, seja por causa de uma guerra ponto a ponto, com viradas sucessivas de um lado e de outro.

Abaixo os principais estados deste grupo e como está a evolução dos candidatos nas pesquisas ao longo da disputa (levando em consideração a média aritmética delas):


ESTADOS PÊNDULO
DELEG.
20/set
05/out
20/out
01/nov
HILLARY
TRUMP
HILLARY
TRUMP
HILLARY
TRUMP
HILLARY
TRUMP
FLÓRIDA
29
43,30%
43,30%
45,80%
43,00%
46,80%
43,00%
44,50%
45,50%
OHIO
18
40,40%
42,40%
41,30%
43,50%
44,00%
44,60%
44,30%
46,80%
GEÓRGIA
16
41,30%
45,00%
41,00%
45,80%
41,30%
46,30%
42,30%
48,00%
CAROL. DO NORTE
15
42,00%
42,00%
44,70%
42,30%
45,80%
43,30%
46,30%
47,00%
VIRGÍNIA
13
43,30%
39,00%
44,00%
37,00%
45,00%
36,30%
47,00%
42,30%
ARIZONA
11
40,40%
38,20%
39,00%
42,00%
41,80%
40,50%
43,30%
45,70%
COLORADO
9
40,00%
37,00%
42,20%
38,60%
44,50%
37,30%
43,70%
41,30%


Caso o candidato Donald Trump dependesse apenas destes estados e continuasse a tendência de crescimento nos próximos dias, poderíamos cravar: "Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos". Porém, a situação dele não é tão confortável quanto pode parecer num primeiro momento. As viradas tem sido constantes e qualquer novidade a favor de Hillary ou contra ele pode mudar tudo novamente. A máquina que ela possui nas mãos e o total apoio do partido, também poderão ser decisivos na reta final.

Como podemos observar nos mapas e na tabela acima, os maiores "estados-pêndulo" estão com ligeira vantagem para o candidato republicano. Hoje o mapa eleitoral mostra um total de 273 x 265 para Hillary Clinton. Para que Trump vença, terá que manter a dianteira em todos os estados que aparece com pequena vantagem: Flórida, Ohio, Geórgia, Carolina do Norte e Arizona - nos três primeiros ele tem mantido uma vantagem sólida, apesar de pequena, ao longo das últimas semanas; já na Carolina do Norte e no Arizona, fundamentais para que tenha qualquer chance, ele ultrapassou apenas ontem, numa vantagem que pode não se manter. Hillary dominou ambos os estados durante toda a campanha, perdendo a liderança apenas agora.

Porém, apenas estes estados não seriam suficientes. Lembrando que são necessários 270 delegados para a vitória, uma virada de última hora no Colorado - que tem diminuído a diferença nos últimos dias -, será o ponto crucial para a vitória do republicano. Imaginar que um estado pertencente à região das Montanhas Rochosas, com 5 milhões de habitantes e apenas 9 delegados no Colégio Eleitoral, decidirá a eleição mais disputada dos últimos anos, regendo o futuro da nação mais poderosa do mundo, parece loucura, mas é a mais pura realidade. Poderá sair daí o grande vencedor.


Utah e o azarão Evan McMullin.

Aqui se encontra mais uma peça do imenso quebra-cabeça da Eleição americana de 2016, que confunde até o mais experiente analista político. Utah é um estado ainda menor que o Colorado (com menos de 3 milhões de habitantes), de maioria conservadora, composto por 70% de mórmons e tradicionalmente um estado republicano (possui o governador e os dois senadores do partido, que também venceu todas as disputas presidenciais desde 1952). Seria um estado facilmente vencido por Trump - que lidera as pesquisas -, se não fosse por um detalhe: o mórmon Evan McMullin, que morou no Brasil na década de 90, em algumas cidades do Rio Grande do Sul.

McMullin é um auto-denominado conservador, ex-membro do Partido Republicano (saiu do partido este ano apenas para disputar a eleição), que decidiu de forma independente entrar na briga em Utah e em mais 10 estados. Não tem chances de vencer a eleição majoritária, mas quer fazer história, sendo o primeiro candidato fora dos dois principais partidos do país a vencer um estado desde a eleição de 1968. A surpresa é ainda maior quando se percebe que todos os candidatos republicanos venceram no estado nos últimos 50 anos e, desde 2000, com um percentual superior a 60%. Atualmente Trump lidera com 32%, contra 30% de McMullin e 24% de Hillary, mas algumas pesquisas já colocam o mórmon à frente do republicano.

E nesta disputa tão apertada, pode acontecer algo bem inusitado, que ocorreu apenas duas vezes na eleição americana (nos longínquos anos de 1800 e 1824): se um candidato não conseguir os 270 votos necessários no Colégio Eleitoral, a eleição tem de ser decidida pela Câmara dos Deputados entre os três primeiros colocados dentre os delegados. Neste cenário entrariam o próprio McMullin, Trump e Hillary. Nesta situação hipotética e bem pouco provável, Trump levaria vantagem, pois o Partido Republicano tende a continuar com maioria na Câmara. E, a menos que deputados republicanos votem no candidato independente de Utah ou na Hillary, ele tenderia a vencer com certa folga. Mas não deixaria de ser inusitado.

E em que situação esta "loucura" poderia acontecer? Se Trump mantiver a frente nos "estados pêndulo" em que está liderando (Flórida, Ohio, Geórgia, Carolina do Norte e Arizona), virar a eleição no Colorado, mas perder em Utah. Desta forma, o republicano ficaria com 268 votos no Colégio Eleitoral, Hillary ficaria com 264 e McMullin com os 6 votos de Utah. Será tão impossível quanto parece? As circunstâncias atuais tendem a afirmar que não.


O caso dos e-mails de Hillary e a reabertura da investigação.

Voltando para o mundo real e saindo do campo das hipóteses pouco prováveis, não poderia finalizar o texto sem escrever um pouco sobre o assunto que tende a dominar o noticiário nesta última semana de campanha: a reabertura da investigação sobre os 33 mil e-mails deletados pelos advogados de Hillary e que ela mantinha em servidor pessoal no porão de casa, quando era Secretária de Estado Americano.

Depois de ter arquivado o caso em agosto, o FBI decidiu reabri-lo a apenas 10 dias da eleição. Muitos tem alegado que se trata de um grande "complô" para prejudicar a candidata, mas é evidente que as recentes informações do WikiLeaks, de que o tal servidor pessoal foi hackeado pela Rússia e que e-mails confidenciais foram vazados, contribuíram muito para que o FBI voltasse ao caso.

A despeito de teorias da conspiração, particularmente eu tenho a opinião de que o caso até demorou a ser debatido pela imprensa americana, que em sua maioria tem apreço pelo Partido Democrata e criou total aversão ao candidato Trump. Seria muito ruim para a eleição se os casos sexuais do magnata continuassem a ser mais importantes para o eleitor americano e para o mundo, que as várias mentiras contadas pela candidata democrata sobre um caso que é considerado o maior escândalo da política americana desde o Watergate.

É evidente que este assunto já deveria ter sido debatido há meses, inclusive já deveria ter sido elucidado e vencido ou a favor de Hillary ou contra ela. Jogar a sujeira para "debaixo do tapete" é que não parece nada democrático e deixa uma grande suspeita se não era a candidata que estava sendo protegida durante todo este tempo. Ruim para ela que o assunto voltou tão próximo da eleição, pois terá que passar os próximos dias se defendendo, enquanto Trump terá tempo de fazer campanha, buscando os votos necessários para vencer a eleição.

Façam suas apostas, pois eu já fiz a minha: será a eleição mais imprevisível que já presenciei dentre as eleições americanas. Meu palpite, hoje, é que a Hillary vença na soma dos estados, se torne a nova presidente, mas perca no voto popular, tirando um pouco o brilho da vitória.

Mas, é evidente, que amanhã o palpite pode mudar. Quem vencerá?

Daniel Mercer.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O Brasil venceu. Tchau querida!


Hoje todos os grandes meios de comunicação do Brasil, e que estão divulgando o mapa do Impeachment em seus sites, chegaram ao número mínimo de 342 deputados necessários favoráveis ao Impeachment:

  • Estadão: 346 a favor; 128 contra; 39 não declarados;
  •  Veja: 344 a favor; 125 contra; 44 não declarados;
  • O Globo: 344 a favor; 120 contra; 49 não declarados;
  • Folha de SP: 342 a favor; 124 contra; 47 não declarados.

De acordo com a oposição e com o presidente da Câmara Eduardo Cunha, já são, pelo menos, 360 deputados favoráveis ao Impeachment, mas que pode chegar a 380 no dia da votação. O site da CUT "Mapa da Democracia", contabiliza 333 favoráveis, 140 contrários e 39 "indecisos". Segundo as contas dos "companheiros" faltam apenas 9 para o Impeachment e 32 para barrá-lo. Já admitem a derrota.

As contas estão batendo, o clima é de derrota no governo. A Dilma fará um pronunciamento oficial hoje às 20h, numa total demonstração de desespero, assim como o Collor em 1992 às vésperas da votação do seu próprio afastamento. Será um momento épico de grande panelaço em todos os cantos do Brasil. Será o ponto final. Ontem o governo e alguns deputados governistas entraram com pedido para anular o processo no STF e para mudar a ordem de votação e foram derrotados por quase a totalidade dos ministros. Apenas Ricardo Lewandowiski (amigo pessoal do Lula) e Marco Aurélio Mello (que virou advogado do PT depois que sua filha virou desembargadora) foram contra a lei e a Constituição e defenderam o governo. A derrota foi fragorosa e deu ainda mais credibilidade ao afastamento da presidente.

A grande maioria dos deputados, que estão discursando no plenário da Câmara neste momento, também são favoráveis. Apenas PT, PC do B, Psol e PDT fecharam questão contra o Impeachment. Poucos deputados do PR, do PP, do PSD e do PMDB são contra. Quase a totalidade, ou mais de 80% pelo menos, são favoráveis.

Agora é hora de continuar pressionando. Não nos dispersar. Lotar as ruas no domingo e fazermos um grande carnaval. A democracia venceu. Nós, que estamos lutando há mais de um ano, vencemos. E o Brasil venceu.

Mapas do Impeachment:

Daniel Mercer.